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R$ 804,9 milhões e a metade que nunca sai de Manaus: o raio-x das emendas dos 24 deputados estaduais do Amazonas

A menos de três meses do início da propaganda eleitoral de 2026, o Portal Zona Franca teve acesso aos registros de execução orçamentária das emendas parlamentares dos 24 deputados estaduais do Amazonas relativas aos exercícios de 2024, 2025 e 2026. O cruzamento de quase 2 mil registros individuais — emenda por emenda, deputado por deputado — permite, pela primeira vez de forma consolidada, comparar quanto cada parlamentar destinou, quanto já chegou de fato ao destino final e para onde esse dinheiro realmente vai.

O retrato é ambíguo. De um lado, a execução geral é alta: dos R$ 804,9 milhões autorizados no período, R$ 723,3 milhões (89,9%) já haviam sido pagos até a data da extração dos dados — um índice que contraria a imagem de emenda parlamentar como recurso represado. De outro, os dados escancaram uma distorção pouco discutida publicamente: quase metade de todo o dinheiro — R$ 402,3 milhões, ou 49,98% do total — não foi parar em prefeituras do interior, mas em órgãos, fundos e unidades de saúde e segurança do próprio Governo do Estado, concentrados na capital.

OS NÚMEROS DAS EMENDAS ESTADUAIS — 2024/2026
R$ 804,9 milhõesautorizados em emendas parlamentares dos 24 deputados (exercícios 2024 a 2026)
R$ 723,3 milhõesefetivamente pagos até a extração dos dados — 89,9% do autorizado
R$ 402,3 milhões(quase 50% do total) foram para órgãos, fundos e unidades estaduais na capital — não para prefeituras do interior
1.947emendas individuais registradas no período, distribuídas pelos 24 gabinetes
4 deputadosmigraram para o PSD na janela partidária de abril/2026, formando a bancada mais nova da Casa

A VANTAGEM ESTRUTURAL DO MANDATO

O volume de recursos por gabinete — em média R$ 33,5 milhões autorizados por deputado nos três exercícios — é apontado por especialistas em orçamento público como um dos fatores que mais pesam a favor de quem já ocupa cadeira na Assembleia Legislativa (Aleam) na disputa por reeleição. Bruno Bondarovsky, fundador da consultoria Central das Emendas, avalia que esse volume de recursos discricionários nas mãos de quem já exerce mandato tende a comprometer a igualdade de condições na corrida eleitoral, criando uma distância estrutural entre quem já tem gabinete e verba para investir na própria base e quem concorre sem mandato.

Pesquisa do instituto Direto ao Ponto, divulgada em março, projeta que 15 dos 24 atuais deputados estaduais seriam reeleitos se a eleição fosse hoje, e ao menos 23 dos 24 devem de fato disputar a reeleição em outubro — a única baixa certa é Alessandra Campêlo, que deixará o Legislativo para concorrer a vice-governadora na chapa do senador Omar Aziz.

QUEM EXECUTA MAIS RÁPIDO — E QUEM DEIXA DINHEIRO PARADO

A tabela abaixo traz os 24 deputados ordenados pelo valor total autorizado, com o quanto já foi efetivamente pago e o percentual de execução. Linhas em vermelho marcam os parlamentares com menos de 85% do valor autorizado já pago — ou seja, com a maior fatia de recursos ainda represada em algum estágio anterior ao pagamento.

Deputado(a)PartidoNº emendasAutorizadoPago% pago
João LuizRepublicanos140R$ 35.020.419,88R$ 27.372.423,4678.2%
Mário César FilhoUnião Brasil83R$ 34.015.980,27R$ 32.331.642,5595.0%
Adjuto AfonsoUnião Brasil82R$ 34.004.485,31R$ 33.376.232,0698.2%
Cabo MacielPL92R$ 33.991.540,66R$ 32.419.642,9495.4%
Delegado PériclesPL159R$ 33.989.992,66R$ 27.691.184,4681.5%
Dra. MayaraRepublicanos27R$ 33.935.980,27R$ 29.486.068,9086.9%
Wilker BarretoPSD*61R$ 33.935.980,27R$ 33.582.354,6299.0%
Joana DarcUnião Brasil27R$ 33.935.979,87R$ 27.006.087,1079.6%
Sinésio CamposPT127R$ 33.893.740,66R$ 28.654.576,6484.5%
Dr. GomesPodemos134R$ 33.891.540,66R$ 31.619.799,8393.3%
Cristiano D’AngeloMDB26R$ 33.885.980,27R$ 33.885.970,27100.0%
Mayra DiasPSD*44R$ 33.861.540,66R$ 21.738.235,2164.2%
Felipe SouzaPRD167R$ 33.861.540,66R$ 28.611.145,9784.5%
Débora MenezesPL58R$ 33.785.204,74R$ 28.480.466,3384.3%
RozenhaPSD*66R$ 33.757.862,51R$ 31.974.667,6894.7%
Abdala FraxeAvante72R$ 33.751.540,66R$ 33.051.452,1397.9%
George LinsUnião Brasil58R$ 33.711.540,66R$ 33.711.540,56100.0%
Dan CâmaraRepublicanos130R$ 33.547.540,66R$ 24.227.144,7172.2%
Carlinhos BessaPV53R$ 33.511.540,66R$ 32.501.415,2297.0%
Roberto CidadeUnião Brasil49R$ 33.456.234,00R$ 31.336.685,3393.7%
Alessandra CampêloPSD*154R$ 33.411.540,66R$ 30.972.649,9492.7%
Thiago AbrahimUnião Brasil55R$ 32.785.980,27R$ 30.316.930,7092.5%
Wanderley MonteiroAvante41R$ 32.763.947,56R$ 31.763.947,5696.9%
Daniel AlmeidaAvante42R$ 28.211.540,66R$ 27.199.948,4996.4%

Chama atenção o contraste nas pontas: George Lins e Cristiano D’Angelo praticamente zeraram a diferença entre o que autorizaram e o que já foi pago (100% e 99,99%, respectivamente), enquanto Mayra Dias — uma das deputadas que migraram para o PSD na janela partidária de 2026 — tem apenas 64,2% do valor autorizado efetivamente pago, a pior execução da Casa. Dan Câmara (72,2%) e João Luiz (78,2%), este último o deputado com maior volume total autorizado no período (R$ 35 milhões), completam o grupo com mais recursos ainda represados.

PARA ONDE VAI O DINHEIRO: O INTERIOR X A CAPITAL

Entre os municípios do interior, Manacapuru lidera o ranking de valor recebido, seguido por Tefé, Parintins, Coari e Itacoatiara. Manacapuru também tem a segunda melhor taxa de execução entre os grandes destinatários (99,9% pago), enquanto Parintins, apesar de somar mais emendas (35) e maior valor autorizado entre os municípios do interior depois de Manacapuru, tem apenas 59% do valor efetivamente pago — o pior índice de execução entre os dez maiores destinos.

MunicípioNº emendasAutorizadoPago
Manacapuru30R$ 35.210.980,27R$ 35.160.721,87
Tefé26R$ 31.450.000,00R$ 31.450.000,00
Parintins35R$ 30.654.560,66R$ 18.088.987,46
Coari11R$ 24.959.248,47R$ 20.790.935,09
Itacoatiara27R$ 20.652.254,66R$ 19.148.566,11
Manaus (interior de emendas p/ capital)50R$ 17.388.192,98R$ 16.686.701,47
Maués23R$ 17.307.866,06R$ 16.756.694,06
Alvarães17R$ 12.012.494,55R$ 12.012.494,55
Autazes18R$ 9.896.692,32R$ 9.576.692,32
Beruri21R$ 9.777.322,69R$ 9.777.322,69
Lábrea17R$ 9.300.000,00R$ 9.300.000,00
Tapauá19R$ 7.834.350,27R$ 7.834.237,79

Mas o dado mais relevante talvez não esteja nesse ranking, e sim fora dele: dos R$ 804,9 milhões autorizados, R$ 402,3 milhões — praticamente a metade — foram classificados nos registros oficiais como destinados a secretarias de estado, fundos estaduais, hospitais, policlínicas, corpo de bombeiros e outras unidades sediadas na capital. Ou seja: quando um deputado anuncia publicamente que “destinou emenda para a saúde do Amazonas”, uma parte relevante desse discurso pode se referir a estruturas que já são do próprio Governo do Estado, e não a uma prefeitura do interior — uma nuance que raramente aparece nos vídeos de entrega de recursos que circulam nas redes sociais dos parlamentares em ano eleitoral.

O “CRESCIMENTO” DO PSD: MAIS JANELA PARTIDÁRIA DO QUE URNA

Um dado merece contextualização: até 2025, o PSD não tinha nenhum deputado estadual eleito pela legenda no Amazonas. A guinada só ocorreu na janela partidária de abril de 2026, quando quatro parlamentares migraram para o partido comandado no estado pelo senador Omar Aziz: Alessandra Campêlo (ex-Podemos), Mayra Dias (ex-Avante), Rozenha (ex-PMB) e Wilker Barreto (ex-Mobiliza). Juntos, os quatro somam R$ 135,1 milhões em emendas autorizadas ao longo do mandato — parte relevante executada e paga quando ainda estavam filiados às siglas de origem, antes de migrarem para o PSD às vésperas da eleição.

A performance de execução dentro do próprio grupo migrado varia bastante: Wilker Barreto (99,0%) e Rozenha (94,7%) estão entre os mais  executados da Casa, enquanto Mayra Dias (64,2%) tem o pior índice entre os 24 deputados — evidência de que a nova legenda reúne perfis de execução orçamentária bem distintos sob um mesmo guarda-chuva partidário.

COMO O PORTAL ZONA FRANCA TEVE ACESSO AOS DADOS

O Portal da Transparência do Governo do Amazonas bloqueia leitura automatizada, e o sistema de consulta da Secretaria de Fazenda (Sefaz-AM) funciona apenas por navegação manual, sem exportação em lote — barreiras que esta reportagem já havia identificado em apuração anterior. A extração consolidada usada nesta matéria foi obtida diretamente pela redação junto ao sistema oficial, emenda por emenda, e depois cruzada e auditada de forma independente. Ainda assim, 158 das 1.947 emendas do período (8,1% do total) não puderam ser automaticamente classificadas por município ou destino a partir da descrição oficial, e permanecem sob checagem manual da redação.

O Portal Zona Franca também protocolou pedido formal de acesso à informação junto à Sefaz-AM para obter esclarecimentos adicionais sobre os critérios de classificação de emendas destinadas a órgãos estaduais e sobre o cronograma de pagamento das emendas ainda pendentes. A resposta, ou a ausência dela, será publicada em atualização a esta reportagem.

Como apuramos

Dados de execução orçamentária: registros de emendas parlamentares individuais extraídos do sistema oficial do Governo do Amazonas, exercícios 2024 a 2026, com 1.947 emendas de 24 deputados, processados e auditados pela redação em agosto de 2026. Município/destino de cada emenda: identificado a partir da descrição oficial do objeto da emenda (campo ‘objetoemenda’); emendas sem menção expressa a um município foram classificadas como órgão, fundo ou unidade estadual sediada na capital. Contexto eleitoral e declarações de especialistas: Bruno Bondarovsky (Central das Emendas) e pesquisa do instituto Direto ao Ponto (março de 2026). Filiações partidárias: janela partidária de abril de 2026, conforme registros de imprensa local.

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