Amazonas

De Manaus aos Açores: relatório revela engrenagem bilionária do CV na Amazônia

Estudo da GI-TOC mostra como o Comando Vermelho transferiu parte do tráfico internacional de portos tradicionais para o terminal de Santana, no Amapá

Foto: DADO GALDIERI/The New York Times

Profissionais do mergulho vindos do Rio de Janeiro e de São Paulo, muitos deles ex-fuzileiros navais ou ex-bombeiros, vêm sendo contratados por criminosos para embutir pacotes de cocaína em compartimentos de navios cargueiros na Amazônia, sem que a tripulação perceba. O trabalho, feito à noite em trechos do Rio Amazonas com até 30 metros de profundidade e visibilidade quase nula, é um dos indícios de sofisticação apontados por um novo relatório da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), divulgado ontem sob o título “Amazônia brasileira: novos corredores e controle do narcotráfico transnacional”.

O documento descreve como o Comando Vermelho (CV) transformou a região amazônica em um dos principais corredores de exportação de drogas para o continente europeu, aproveitando-se da menor vigilância em portos afastados dos grandes centros.

Um carregamento bilionário nos Açores

O caso que ilustra essa mudança de rota aconteceu em março de 2025, quando a polícia e a Marinha de Portugal apreenderam, em ação conjunta, um submarino carregado com 6,6 toneladas de cocaína de alta pureza nas proximidades do arquipélago dos Açores. A carga foi avaliada em mais de R$ 2 bilhões. O que mais surpreendeu as autoridades não foi apenas o volume: o carregamento havia partido de Macapá, capital do Amapá, cidade situada estrategicamente na foz do Rio Amazonas.

Segundo o levantamento da GI-TOC, o endurecimento da fiscalização em portos historicamente usados pelo crime — como Santos, em São Paulo, e Vila do Conde, no Pará — empurrou os traficantes para pontos com menos estrutura de controle. Isolado geograficamente e sem grande aparato de inspeção, o Porto de Santana, no Amapá, tornou-se uma das principais alternativas para o escoamento da droga.

— A rota do Rio Solimões já não é a única. O narcotráfico na Amazônia se transformou em um problema complexo e dinâmico. Os criminosos diversificam e adaptam rotas e métodos constantemente para escapar da fiscalização e alcançar o mercado europeu — afirma Gabriel Funari, coordenador da GI-TOC na região amazônica.

— O tráfico vem sendo redirecionado para o Amapá. O Porto de Santana não tem escâneres para contêineres, e as inspeções manuais são esporádicas — completa Funari.

Apreensões e violência disparam na região

O crescimento das operações de tráfico tem um reflexo direto nos números de segurança pública da região. Entre 2019 e 2024, as apreensões feitas pelas forças estaduais de segurança dos nove estados da Amazônia Legal saltaram 574%, somando um volume acumulado de 162 toneladas de cocaína. No âmbito federal, o crescimento foi de 84% no período, com a Polícia Federal chegando a 118 toneladas apreendidas na Amazônia brasileira.

A violência também avançou junto com o tráfico. Em 2024, a taxa de homicídios na região amazônica atingiu 27,3 casos por 100 mil habitantes — 31% acima da média nacional, de 20,8. O Amapá se destacou negativamente: o estado registrou a maior taxa de homicídios entre as 27 unidades da federação naquele ano, com 45,1 casos por 100 mil habitantes. No município de Santana, sede do principal porto usado pela rota, esse índice chegou a 69,9 por 100 mil habitantes, segundo dado de 2023.

Como o CV assumiu o controle da bacia amazônica

O relatório atribui essa expansão territorial ao modelo de organização adotado pelo Comando Vermelho, facção nascida no Rio de Janeiro que hoje domina a maior parte da Bacia Amazônica após anos de disputas violentas com grupos rivais. Ao contrário de outras organizações, o CV permite que células locais atuem com autonomia, desde que mantenham lealdade e acesso compartilhado às rotas — estratégia que garantiu à facção o controle de pontos logísticos essenciais, das plantações de coca no Peru até as periferias de Manaus e Macapá.

— O CV é o grande responsável pela consolidação da Amazônia como corredor de escoamento de cocaína para a Europa. Nos últimos 15 anos, houve essa expansão da facção na região, uma resposta estratégica para fugir da fiscalização dos portos no Sudeste e para o domínio da “Rota Caipira” pelo PCC — avalia Funari.

Linha do tempo de uma rota em transformação

O estudo reconstitui a trajetória do crime organizado na região desde os anos 1980, quando os cartéis colombianos de Medellín e Cali criaram a chamada “Rota do Solimões”, conectando as zonas produtoras do Peru e da Colômbia a Manaus por meio de barcos pesqueiros.

Já nos anos 1990, com o enfraquecimento dos cartéis da Colômbia, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) passaram a negociar diretamente com o Comando Vermelho, então comandado por Fernandinho Beira-Mar — trocando cocaína por armas de fabricação brasileira. O criminoso fluminense acabou preso em 2001 em território colombiano sob controle das Farc, próximo à fronteira com a Venezuela.

Em 2010, foi a vez do Primeiro Comando da Capital (PCC), facção paulista, entrar na disputa pela região, na tentativa de expandir suas exportações via Vila do Conde, no Pará. Paralelamente, organizações locais se uniram sob a bandeira da Família do Norte (FDN). O grupo, no entanto, foi dizimado após os massacres registrados em presídios de Manaus em 2017 e 2019, sendo posteriormente absorvido pelo Comando Vermelho — que assim consolidou sua hegemonia na maior parte da bacia amazônica.

Manaus como centro de negociação e o preço da droga

O relatório também reconstitui, etapa por etapa, a valorização da cocaína ao longo da rota amazônica — e ela é expressiva. Nas zonas de cultivo do Peru e da Colômbia, o quilo da droga custa cerca de US$ 1 mil. Ao entrar no Brasil, pela Tríplice Fronteira ou por Santo Antônio do Içá (AM), o preço já sobe para uma faixa entre US$ 2,5 mil e US$ 3,5 mil por quilo — encarecimento puxado pelo custo do combustível fluvial, pela necessidade de escolta armada e pelo pagamento de propina em paradas ribeirinhas.

Manaus funciona como o hub logístico central da operação: é aqui que os preços voltam a ser renegociados e a carga é transbordada para contêineres e rotas terrestres, como a BR-174, em direção a Roraima. A partir de Manaus, o carregamento chega a um ponto de bifurcação, de onde parte da droga segue para abastecer o mercado doméstico no Centro-Sul do país, enquanto o restante segue para os portos de exportação no Pará e no Amapá — como Santarém, Belém e Santana —, onde o quilo já custa entre US$ 4 mil e US$ 5 mil, reflexo da logística de ocultação, que inclui a contratação de mergulhadores profissionais e adaptações nos cascos dos navios.

Na ponta final, no varejo das capitais europeias, o preço chega a variar entre € 50 mil e € 70 mil por quilo — o equivalente a € 50 a € 70 o grama. Do início ao fim da cadeia, o relatório da GI-TOC estima uma margem de lucro bruto superior a 5.000% sobre o custo de origem da droga. Entre os fatores que facilitam essa movimentação ao longo do trajeto, o estudo cita ainda a extensão dos rios amazônicos e a corrupção de agentes públicos.

“Narcogarimpo”: ouro ilegal financia o tráfico

Outro ponto de atenção do levantamento é a convergência entre o narcotráfico e o garimpo ilegal, fenômeno batizado de “narcogarimpo”. As facções aproveitam a infraestrutura já existente — como pistas de pouso clandestinas e redes de transporte usadas por garimpeiros — para movimentar a droga. O ouro extraído ilegalmente, por sua vez, passou a servir também à lavagem de dinheiro e a pagamentos em transações internacionais, favorecido, segundo o documento, pelas brechas na regulação do mercado brasileiro de metais.

Mergulhadores, submersíveis e navios pesqueiros: os três métodos de transporte

O relatório identifica três métodos principais usados pelas quadrilhas para tirar a cocaína do Brasil. O primeiro, conhecido como “rip-on”, consiste em mergulhadores fixando a droga diretamente na caixa de mar — compartimento usado para captação de água — de navios cargueiros. O segundo é o uso de submersíveis artesanais, embarcações capazes de navegar até a costa ou até ilhas periféricas, como a Ilha de Santana. O terceiro método são os navios pesqueiros, empregados para o transporte direto transoceânico da droga.

A prática de recrutar mergulhadores profissionais para o método “rip-on” não é novidade nos portos do Sudeste — o Porto de Santos já registra esse tipo de operação há anos. O que o relatório destaca é a replicação dessa tática na Amazônia: os mergulhadores, trazidos de avião do Rio de Janeiro e de São Paulo, costumam ter passagem pelas Forças Armadas ou pelo Corpo de Bombeiros. As operações são feitas à noite em trechos do Rio Amazonas com até 30 metros de profundidade e visibilidade quase nula.

Dois episódios recentes ilustram o método. Em abril de 2024, a Polícia Federal localizou 150 quilos de cocaína na caixa de mar de um navio atracado no Porto de Santana. Durante a retirada da carga, um bombeiro chegou a romper o tímpano em razão da profundidade em que a droga estava escondida, obrigando a PF a acionar mergulhadores especializados de outros estados para concluir a operação.

Já em junho do ano passado, uma remessa de 400 quilos de cocaína, atribuída ao CV, foi localizada em área rural de Macapá. A droga aguardava a chegada de um mergulhador vindo de outro estado, que a inseriria em navios ancorados na zona de espera do Porto de Santana com destino a Portugal.

Completam o arsenal de camuflagem do tráfico na região o uso de lanchas blindadas e de aeronaves que sobrevoam a floresta em baixa altitude para escapar da detecção por radar — recursos que, segundo o relatório, evidenciam tanto a sofisticação das quadrilhas quanto os limites do monitoramento exercido pelas forças de segurança locais. Para reverter esse cenário, Funari defende o reforço da cooperação entre países na fronteira e mais investimento em tecnologia, sobretudo em escâneres de contêineres para portos de menor porte.

Fonte: O Globo — reportagem original de Aline Ribeiro, publicada em 11/09/2026.

Receba mensagem no WhatsApp