MODELO DE NEGÓCIOS

Do rio para o tijolo: o plástico amazônico que virou renda para catadores em Belém

Tecnologia que transforma resíduos em brita ecológica ganhou impulso com a COP30 e já movimenta cooperativas de reciclagem no Pará, mas especialistas apontam que a inclusão social dos catadores ainda depende de financiamento e de marco regulatório para virar escala

Antes de virar tijolo ou banco de praça em Belém, a garrafa PET passa primeiro pelas mãos de um catador. É esse elo — muitas vezes invisível na cadeia da reciclagem — que sustenta um dos projetos mais comentados da capital paraense no pós-COP30: a transformação de resíduos plásticos retirados de rios e canais amazônicos em brita ecológica, usada para fabricar componentes de construção civil.

A tecnologia, desenvolvida pela startup paraense FlexStone em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), já rendeu um protótipo de casa sustentável erguido com o equivalente a cerca de 300 mil garrafas PET. Mas o impacto que move pesquisadores e gestores públicos vai além do concreto: cooperativas de catadores, que historicamente sobrevivem à margem da cadeia produtiva, passaram a ser fornecedoras de uma matéria-prima valorizada — com potencial de gerar renda extra em uma das regiões com os piores indicadores de saneamento do país.

Da coleta ao concreto

O processo começa nos canais e igarapés de Belém, onde garrafas PET, embalagens e outros resíduos plásticos são retirados pelo projeto Promares. Depois de triados, os materiais seguem para a linha de produção da FlexStone, que hoje processa em média cinco toneladas de plástico por mês — volume que chegou a sete toneladas mensais durante a operação especial montada para dar conta dos resíduos gerados na COP30, em novembro de 2025.

Segundo o CEO da FlexStone, Rodrigo Hühn, o diferencial do método é dispensar a separação do plástico por cor ou composição e não usar água no processo — o que reduz custo e viabiliza o aproveitamento de resíduos que normalmente seriam descartados em aterros ou se fragmentariam em microplásticos nos rios. O material processado dá origem à brita ecológica, hoje usada em bancos de praça, floreiras e lixeiras instaladas em canais revitalizados pela prefeitura, caso da travessa Quintino Bocaiúva, entregue em março de 2026.

Quem recolhe o plástico

É na ponta da coleta que o projeto tenta produzir seu impacto social mais direto. Em Belém, a Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis (Concaves) foi parceira da FlexStone na destinação dos resíduos plásticos gerados durante a COP30 — parte deles oriunda da Cúpula dos Povos, espaço paralelo à conferência da ONU organizado pela sociedade civil na própria UFPA. Passar a fornecer plástico para uma cadeia de valor mais estruturada, dizem pesquisadores envolvidos no projeto, muda o papel dos catadores: de coletores informais para fornecedores de insumo industrial.

Coordenador do projeto no Pará, o pesquisador Neyson Mendonça, do programa de pós-graduação em engenharia sanitária e ambiental da UFPA, resume o efeito esperado: “A tecnologia gera novas oportunidades de trabalho e renda para cooperativas de reciclagem, promove inclusão social e contribui para uma cadeia produtiva mais sustentável na Amazônia”, afirma.

O desenho lembra outras iniciativas que vêm ganhando força na região amazônica para formalizar a renda de catadores. Em Manaus, por exemplo, um sistema de bonificação com rastreabilidade em blockchain remunera cooperativas e sucateiros por tonelada de plástico retirada dos igarapés e do rio Negro, tentando resolver o mesmo problema estrutural: sem incentivo econômico e sem infraestrutura pública de coleta seletiva, o plástico segue tendo como destino mais provável o rio, e não a reciclagem.

Um estudo que deu urgência ao tema

O interesse por soluções como a da FlexStone cresceu à medida que a ciência passou a dimensionar melhor o problema. Um estudo publicado em 2025 na revista Ambio — citado pela reportagem original da Folha — reuniu 52 estudos revisados por pares e concluiu que a Amazônia abriga o segundo rio mais poluído por plástico do mundo, à frente de rios do Ártico e atrás apenas do Ganges. Coordenada pela bióloga Jéssica Fernandes de Melo, colaboradora da Fiocruz Amazônia, a revisão é a primeira sistematização do tema no bioma e mapeou contaminação por macro, meso, micro e nanoplásticos em peixes, aves, répteis, sedimentos e água.

O epidemiologista Jesem Orellana, também da Fiocruz Amazônia, ressalta que boa parte dos municípios do interior do Amazonas não conta com nenhum serviço de reciclagem — o lixo doméstico, antes majoritariamente orgânico, hoje é dominado por garrafas PET e embalagens descartáveis que acabam nos rios. É esse vácuo de infraestrutura que projetos como o da FlexStone e o próprio Promares tentam preencher, ainda que em escala piloto.

Uma rede que cresceu depois da reportagem original

Desde a publicação da  reportagem  de Bruno Magno para a Folha de S.Paulo da, o Promares avançou de fase. O projeto — batizado oficialmente de “Mar Circular: Construindo Soluções” — teve seu lançamento nacional realizado em 10 de dezembro de 2025, na Universidade de Brasília (UnB), com execução prevista até 2028. A coordenação é da Universidade Técnica de Braunschweig, da Alemanha, com financiamento do Ministério Federal do Meio Ambiente alemão por meio da instituição pública ZUG.

A rede de parceiros também é maior do que a descrita inicialmente: além da UFPA, já são 14 universidades brasileiras envolvidas — não 12, como constava na cobertura original —, incluindo USP, UnB e a Universidade Estadual do Maranhão (Uema), que aderiu formalmente ao projeto em dezembro. Pará, Maranhão, Bahia e Rio de Janeiro seguem como estados-piloto. Para a pesquisadora Christiane Pereira, coordenadora-geral do projeto, reunir instituições brasileiras e alemãs permite adaptar soluções tecnológicas à realidade amazônica ao mesmo tempo em que se fortalece a inclusão produtiva de cooperativas, povos indígenas e comunidades ribeirinhas.

Da fábrica para dentro de casa

Um dos desdobramentos mais visíveis da tecnologia é o protótipo de moradia sustentável erguido no Parque de Ciência e Tecnologia Guamá, em Belém. Construída com tijolos feitos a partir da brita ecológica, a casa incorporou o equivalente a 300 mil garrafas PET e apresenta, segundo Hühn, conforto térmico superior ao de construções convencionais — a estrutura esquenta menos que uma alvenaria tradicional. Casos semelhantes de blocos modulares 100% plásticos vêm sendo testados em outras frentes na Amazônia, sinalizando que a construção civil pode se tornar um destino relevante para o plástico reciclado na região, embora ainda em fase de projeto-piloto.

Os limites da escala

Apesar do simbolismo, o projeto ainda opera em volume modesto: cinco toneladas de plástico por mês é uma fração diante das mais de 2,3 mil toneladas de resíduos que só a cidade de Manaus produz por dia, ou dos 3,4 milhões de toneladas de plástico que, segundo dados da ONU, chegam anualmente a rios e mares brasileiros. Levar a tecnologia a outras cidades amazônicas — meta declarada da FlexStone — depende de fatores que fogem ao controle da startup: consolidação de pesquisas, evolução do marco regulatório sobre uso de plástico reciclado na construção civil e fortalecimento de parcerias entre universidades, cooperativas, empresas e poder público, segundo Mendonça.

Há também uma pergunta em aberto sobre remuneração: reportagens recentes sobre iniciativas similares na região mostram que, sem mecanismos claros de bonificação ou formalização, cooperativas de catadores seguem dependendo de contratos pontuais com startups e prefeituras, sem garantia de renda estável. Nove meses após o início do projeto em Belém, a expectativa de pesquisadores é que a fase de expansão do Promares, agora com financiamento internacional garantido até 2028, ajude a transformar parcerias informais como a da Concaves em modelo replicável de geração de renda para catadores em toda a Amazônia.

Fontes: reportagem original de Bruno Magno para a Folha de S.Paulo (jul/2026); Promares; UFPA; Agência Brasil; Agência Fiocruz de Notícias; CNN Brasil; Portal Em Tempo; UEMA; TJMA; Gazeta Mercantil.

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