Reportagem

Garimpo migra na Amazônia, escapa da fiscalização e aprofunda conflito entre indígenas

Reportagem da Folha, com apuração em campo ao lado de PRF e Ibama em Roraima, mostra como o garimpo ilegal mudou de rota, foi para o subsolo e recrutou comunidades locais depois do aperto na fiscalização — cenário que inclui minas subterrâneas destruídas em Maués, no Amazonas, e resistência armada de indígenas contra agentes federais

Agentes da PRF fazem a detenção de um indígena suspeito de envolvimento com garimpo. Ele foi encaminhado para a Polícia Federal – Pedro Ladeira/Folhapress

“Segue, segue, segue! Acelera, não para, vai!” — gritou um policial rodoviário federal pelo rádio da viatura, enquanto flechas e pedras batiam na lataria do veículo e a poeira da estrada de terra dificultava a visão. Era a tarde de 10 de maio, e o comboio da PRF deixava em alta velocidade a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, sob ataque de indígenas armados com flechas de mais de um metro e pedras, a pé e em motocicletas. Uma flecha ficou cravada na traseira de um dos carros; pedras quebraram o vidro de outro. Para abrir passagem, os policiais dispararam balas de borracha.

A cena resume a nova fase do garimpo ilegal na Amazônia. A atividade migrou para outros territórios para driblar o aperto na fiscalização, se adaptou para operar em galerias subterrâneas e criou novas rotas de lavagem e exportação de ouro. No caminho, afetou a dinâmica de terras indígenas e provocou conflitos entre povos que vivem ali — inclusive dentro das próprias comunidades.

A Folha teve acesso a investigações, relatórios de inteligência e documentos que descrevem a atuação de facções, milícias e empresários ligados ao mercado financeiro nas áreas de extração de ouro, reunidos numa série de reportagens sobre a nova cara do garimpo ilegal no país.

De Bolsonaro a Lula: fiscalização reduziu garimpo, mas não acabou com ele

A atividade ilegal explodiu durante o governo Jair Bolsonaro (PL). Na Terra Indígena Yanomami — que se estende por Roraima e Amazonas —, houve invasão de cerca de 20 mil garimpeiros. O resultado foi um caos sanitário, com postos de saúde abandonados e remédios vencidos, que contribuiu para a morte de centenas de indígenas por malária e desnutrição.

A partir de 2023, o governo Lula (PT) passou a intensificar operações de combate à exploração ilegal de ouro, o que derrubou o número de alertas de garimpo no país, segundo o Ibama (Instituto de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Pressionada, sobretudo na Terra Yanomami, a atividade migrou para áreas menos monitoradas, mudou métodos de exploração e ampliou o recrutamento de comunidades locais.

Nova rota: Mato Grosso, Amapá e Rondônia ganham terreno

Dados do Ibama apontam redução do garimpo em estados tradicionalmente mais afetados, como Pará e Roraima, e avanço sobre Mato Grosso, Amapá e Rondônia — numa busca por áreas com menor pressão de fiscalização. “O que houve foi um deslocamento, uma mudança de endereço dos garimpos ilegais”, resume o procurador André Luiz Porreca, da Procuradoria da República no Amazonas.

Levantamento da rede MapBiomas, feito a pedido da Folha, mostra que a Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso, se tornou uma das principais novas frentes do garimpo ilegal no país: a área garimpada identificada por satélite saltou de 147 hectares em 2022 para 3.432 hectares em 2025 — o dobro da área do município de São Caetano do Sul (SP). Com esse avanço, Sararé passou da oitava para a quinta posição entre as terras indígenas mais afetadas pelo garimpo no Brasil, o que levou o governo federal a intensificar operações de fiscalização e repressão na região.

Minas subterrâneas driblam o satélite — uma delas tinha 70 metros, em Maués (AM)

Parte da nova estratégia do garimpo consiste em explorar galerias e túneis escavados abaixo da superfície para acessar o minério. Como essas estruturas não aparecem em imagens de satélite, ficam mais difíceis de identificar — o que pode fazer com que a dimensão real do garimpo ilegal seja maior do que a registrada pelos levantamentos atuais.

Desde 2024, minas subterrâneas foram identificadas e destruídas em Sararé (MT) e em Maués, no Amazonas — nesse caso, com 70 metros de profundidade.

Para Cesar Diniz, coordenador técnico do mapeamento de mineração da Rede MapBiomas, os dados mostram com precisão onde o Estado deve atuar para enfraquecer o garimpo ilegal. Segundo ele, operações em terras indígenas como Kayapó, Munduruku e Yanomami conseguiram conter a expansão da atividade, mas os resultados podem ser temporários: “A ilegalidade tende a se readequar se não houver vigilância contínua. No país, a estimativa é que 70% dos garimpos têm alguma ilegalidade.”

No Brasil, a exploração mineral só pode ser feita por empresas com concessão de lavra ou por garimpeiros autorizados pela ANM (Agência Nacional de Mineração), cumprindo exigências legais e ambientais. O garimpo é ilegal quando ocorre sem autorização, em áreas proibidas — como terras indígenas e unidades de conservação — ou fora da legislação.

Uma semana em campo: a operação até a comunidade Napoleão

A Folha passou uma semana em Roraima acompanhando operações da PRF, que atua ao lado da Polícia Federal, do Exército e da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) no combate ao garimpo em terras indígenas. Nessas áreas, as ações são feitas em parceria com o Ibama, responsável pela fiscalização e repressão a crimes ambientais.

A reportagem seguiu uma operação até a comunidade Napoleão, na Raposa Serra do Sol, num trajeto de cerca de 220 km de rodovia a partir de Boa Vista. Durante o percurso, moradores e garimpeiros já trocavam mensagens em grupos de WhatsApp avisando sobre a chegada dos agentes — com internet via satélite, operações-surpresa se tornaram mais difíceis na Amazônia.

Na entrada da comunidade, indígenas cercaram o acesso das viaturas e impediram momentaneamente o avanço dos agentes — tempo suficiente para que garimpeiros fugissem e abandonassem parte da estrutura usada na atividade ilegal. A casa utilizada por eles tinha sinais de ocupação recente: alimentos, utensílios, roupas e cobertas sobre as redes, indicando fuga às pressas.

Um indígena foi preso em frente ao imóvel, a poucos metros de piscinas contaminadas por cianeto usadas no garimpo. Kelvin da Silva Batista, 29, da etnia Makuxi, negou participação na atividade, mas afirmou ter trabalhado três meses no garimpo em 2023, depois que um investidor chegou à comunidade oferecendo serviço. Segundo ele, o grupo de 14 pessoas chegava a produzir até 400 gramas de ouro por mês — só 30% da quantidade era dividida entre os trabalhadores. “A prioridade era contratar indígenas”, disse.

Lideranças suspeitas de financiar e permitir o garimpo

Segundo investigações da Polícia Federal, lideranças indígenas da região são suspeitas de permitir a atuação de garimpeiros em troca de dinheiro e, em alguns casos, de financiar a atividade.

Uma delas é Denivaldo Raposo, da etnia macuxi e ex-candidato a deputado estadual pelo antigo PTB (hoje PRD), em 2022. Em vídeo nas redes sociais, ele assumiu ter liderado a mobilização contra os agentes durante a operação: “O órgão público federal veio como saqueador, como ladrões que entram em território. Claro que foram recebidos daquela forma [com flechas], eles deram vários disparos” — declarou ao lado do policial civil Daniel Trindade, filiado ao PRD e pré-candidato a deputado estadual. Procurado por telefone e mensagem de texto, Denivaldo não respondeu à Folha.

Em março, um policial federal já havia sido atingido por uma flecha em outra operação de combate ao garimpo na região.

Segundo Amarildo Macuxi, principal liderança do CIR (Conselho Indígena de Roraima), o grupo favorável ao garimpo na Raposa Serra do Sol é minoritário, mas dificulta as ações de fiscalização. Para ele, a presença de garimpeiros trouxe desmatamento, contaminação de rios e agravamento de problemas sociais: “Há relatos de envolvimento de jovens com drogas, alcoolismo e prostituição.”

“Uma reação violenta contra uma ação legítima do Estado não é natural e indica que algo diferente está acontecendo nessas comunidades”, afirmou Marcelo Aguiar da Silva, superintendente da PRF em Roraima.

Cianeto: risco agudo diferente do mercúrio

Além dos confrontos, autoridades passaram a enfrentar o desafio do uso de cianeto no garimpo. “Diferentemente do mercúrio, que causa danos ao longo do tempo, o cianeto oferece um risco agudo. Dependendo da concentração no ar, a inalação pode causar morte instantânea”, explicou Eder Carvalho dos Santos, superintendente do Ibama em Roraima.

O uso do cianeto na Raposa Serra do Sol — em contraste com o mercúrio predominante na Terra Yanomami — decorre de diferenças geológicas: ali, o ouro está contido em rochas, que são explodidas com dinamite, trituradas e submetidas ao cianeto para separar o metal.

Yanomami: queda na atividade, mas sem fim

Apesar da redução do garimpo na Terra Yanomami, a atividade persiste em áreas isoladas da floresta, principalmente pelo rio Uraricoera, onde a movimentação ocorre à noite para escapar da fiscalização.

Economia local sente o aperto

A história de Roraima está profundamente ligada ao garimpo, atividade que marcou a ocupação do território e influenciou a formação econômica do estado — por isso, parte da população vê a mineração com simpatia e critica o aumento da fiscalização. Na Rua do Ouro, em Boa Vista, comerciantes afirmam que o endurecimento da fiscalização afetou os negócios. “Atualmente, o trabalho se resume quase exclusivamente ao conserto ou fabricação de joias usadas. O garimpeiro foi marginalizado”, disse o ourives Marcondes Sabino.

Fonte: Folha de S.Paulo, 3/8/2026.

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