Política

Sob pressão, Flávio Bolsonaro nega ter questionado urnas após repetir ao pai discurso falso a embaixadores

TSE desmente relação entre urnas brasileiras e empresa venezuelana citada pelo senador; ministros do tribunal já avaliam precedente que tornou Jair Bolsonaro inelegível em situação semelhante

Menos de 24 horas depois de citar, diante de diplomatas de 42 países, uma suposta ligação entre as urnas eletrônicas brasileiras e a empresa venezuelana Smartmatic, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) recuou do teor da fala. Em nota assinada também pelo coordenador de campanha, senador Rogério Marinho, e pela coordenadora jurídica Maria Claudia Bucchianeri, a pré-campanha afirmou que “não é verdade” que o senador “tenha questionado a integridade do sistema de votações no Brasil”. O texto, no entanto, não altera o fato registrado por participantes e pela imprensa: a informação de que máquinas usadas nas eleições brasileiras teriam a mesma origem de equipamentos venezuelanos é falsa e já havia sido desmentida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em notas anteriores.

O que aconteceu

Flávio discursou na noite de terça-feira (21/7), em Brasília, no evento “Debatendo o Brasil”, promovido pela consultoria Novo Selo Comunicação em parceria com o site The Brazilian Report. A plateia reunia embaixadores, cônsules e representantes diplomáticos de mais de 40 países, incluindo Estados Unidos, China, Reino Unido, Alemanha, Israel e Áustria.

Ao tratar do sistema eleitoral brasileiro, o senador afirmou: “Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma empresa” — em referência à Smartmatic, companhia venezuelana citada por ele como fonte de suspeita de fraude. Na sequência, pediu aos diplomatas que os países enviem “a maior quantidade de observadores possível” para acompanhar as eleições de outubro.

A informação falsa e o desmentido do TSE

A afirmação de Flávio não corresponde à realidade do sistema eleitoral brasileiro. Segundo nota histórica do TSE, atualizada em 8 de julho de 2026, as urnas eletrônicas são desenvolvidas por servidores e técnicos da própria Justiça Eleitoral e fabricadas por empresas contratadas via licitação pública — sem qualquer relação com a tecnologia da Smartmatic.

O tribunal reconhece um único vínculo comercial com a empresa venezuelana: contratos restritos à prestação de serviços de conexão de dados e voz, e a treinamento de suporte técnico — nunca ao desenvolvimento, à programação ou à operação das urnas. A Smartmatic também disputou, e perdeu, a licitação para fabricar equipamentos para as eleições de 2020; a vencedora foi a Positivo. “Em mais de 20 anos de trajetória, o sistema foi reiteradamente testado e comprovadamente isento de quaisquer formas de manipulação, de fraude na totalização de votos ou de quebra do sigilo do voto”, diz a nota do tribunal.

O gancho usado pelo senador: o relatório da CIA

Flávio ancorou sua fala em um documento da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) tornado público na semana anterior ao evento, que reúne dados de 2004 a 2020 sobre o sistema eleitoral venezuelano e aponta suspeitas de fraude no pleito de 2012 por meio de urnas pré-programadas. O problema, segundo apuração da imprensa, é que o relatório não estabelece nenhuma ligação entre a tecnologia usada na Venezuela e o modelo brasileiro — e a própria CIA concluiu, na análise do pleito de 2012, pela ausência de fraude eletrônica em larga escala naquela eleição específica.

O paralelo com o pai — e o risco jurídico

O episódio reproduz, quase à risca, o script utilizado por Jair Bolsonaro em julho de 2022, quando o então presidente reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para levantar suspeitas contra as urnas, com transmissão pela TV Brasil. O caso resultou, em 2023, na condenação de Bolsonaro por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, e na sua inelegibilidade por oito anos — até 2030.

O desdobramento mais recente: segundo apuração do Brasil 247, ministros do TSE já monitoram o discurso de Flávio à luz do chamado “caso Francischini”, precedente de 2021 usado como base jurídica para punir ataques ao sistema eleitoral e que, dois anos depois, fundamentou a cassação de elegibilidade do próprio Jair Bolsonaro. Magistrados consultados pela reportagem apontam, contudo, diferenças relevantes entre os dois episódios — entre elas, o fato de Flávio não ocupar cargo público no Executivo nem ter usado estrutura oficial do Estado para o evento, como fez o pai em 2022.

Durante a fala, o senador também tratou da condenação do pai: chegou a dizer, em inglês, que Jair Bolsonaro estaria preso em razão da reunião com embaixadores de 2022 — quando na verdade a prisão decorre de condenação distinta, no processo da trama golpista. Bolsonaro é inelegível, não preso, por causa do episódio das urnas.

OUTRO LADO

Procurada após a repercussão das falas, a pré-campanha de Flávio Bolsonaro enviou nota classificando o episódio como descontextualização. Segundo o texto, o senador “se limitou a relatar dois fatos públicos e amplamente divulgados pela imprensa”: a reunião que gerou a inelegibilidade do pai e o relatório da CIA sobre a Venezuela. A nota afirma ainda que Flávio “expressamente” disse não estar questionando o sistema de votação brasileiro, e reforça “sua integral confiança no sistema eleitoral brasileiro”. O pedido por mais observadores internacionais, diz a campanha, “segue uma prática adotada em diversas democracias”.

Nota da redação:o TSE reafirma, com base em auditorias e testes públicos realizados ao longo de mais de duas décadas, que não há evidência de fraude nas urnas eletrônicas brasileiras.
 


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