Brasil

Antes da morte, um rastro de avisos: Brasil soma centenas de ameaças e agressões para cada feminicídio

Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que, para cada mulher morta por razões de gênero em 2025, o país registrou em média 500 ameaças, 182 agressões e 79 casos de perseguição contra mulheres — uma sequência de sinais que, na maioria dos casos, antecede o desfecho fatal. O Brasil fechou o ano passado com 1.571 feminicídios, a maior marca da série histórica iniciada em 2015, e o primeiro semestre de 2026 confirma que o país segue matando, em média, quatro mulheres por dia.

Uma mulher raramente é assassinada por um homem que ela acabou de conhecer, nem por um crime que surge do nada. Os dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) reforçam o que especialistas em segurança pública já apontavam há anos: o feminicídio costuma ser o último capítulo de uma história que começou muito antes, com ameaças, agressões físicas e perseguição que o Estado registrou — e não conseguiu interromper a tempo. Em 2025, para cada feminicídio consumado no país, houve outros 500 registros de ameaça, 182 de agressão e 79 de perseguição (stalking) contra mulheres, segundo o levantamento.

Uma escalada que raramente é silenciosa

A proporção divulgada pelo FBSP funciona como um retrato da trajetória de violência que, em boa parte dos casos, precede a morte. Ameaça, agressão e perseguição são tipificações que já constam no Código Penal e no arcabouço da Lei Maria da Penha havia anos, mas o crescimento constante desses números indica duas coisas ao mesmo tempo: a violência contra a mulher segue em expansão no país e a capacidade das polícias de registrar esses episódios também melhorou. Para os pesquisadores do FBSP, essa combinação explica parte da alta observada na série histórica — mais mulheres denunciando e mais delegacias registrando um crime que antes ficava invisível nas estatísticas.

Ainda assim, o volume de avisos que precede cada morte reacende uma pergunta central para gestores de segurança pública e para a rede de proteção às mulheres: quantas dessas trajetórias poderiam ter sido interrompidas antes do desfecho fatal, caso a resposta institucional a uma ameaça ou a uma agressão fosse mais rápida e mais presente?

2025: o ano mais letal desde a tipificação do crime

O Brasil fechou 2025 com 1.571 feminicídios, o maior número desde que o crime foi tipificado no Código Penal, em março de 2015. A trajetória da série histórica ajuda a dimensionar o problema: de 449 casos registrados em 2015, o número praticamente dobrou já no ano seguinte, com 929 vítimas, e manteve trajetória de alta na década seguinte — com uma leve exceção em 2021 —, até ultrapassar a marca de 1.500 casos anuais no ano passado. Passados dez anos de vigência da lei, o país já soma mais de 13 mil mulheres mortas por razões de gênero.

Os números também mostram que a violência letal contra a mulher segue com um padrão bem definido. Cerca de 8 em cada 10 feminicídios são cometidos por companheiros ou ex-companheiros das vítimas, e a maioria das mortes acontece dentro da própria casa da mulher — justamente o espaço que deveria representar segurança. O perfil das vítimas também revela desigualdades: mulheres negras e mulheres entre 18 e 44 anos estão superrepresentadas nos casos registrados pelas polícias civis em todo o país.

O interior do país concentra as mortes — e tem menos proteção

Um dos achados mais relevantes do levantamento é a distribuição territorial dos crimes. Cidades com até 100 mil habitantes concentram cerca de metade dos feminicídios do Brasil, embora abriguem pouco mais de 40% da população feminina do país. O desequilíbrio se acentua nos municípios ainda menores, com até 50 mil habitantes, que apresentam taxas proporcionalmente mais altas de feminicídio do que as grandes capitais.

O problema é que a rede de proteção não acompanha esse mapa de risco. Levantamentos oficiais mostram que apenas uma pequena fração dos municípios de pequeno porte conta com Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher ou Casa Abrigo. Na prática, mulheres que vivem no interior do país muitas vezes não encontram, no próprio município, uma estrutura capaz de acolher uma denúncia, avaliar o risco de um relacionamento violento ou oferecer abrigo em caso de emergência — o que ajuda a explicar por que o alerta inicial, muitas vezes, não se transforma em proteção efetiva.

2026 mantém o país em patamar recorde

Os dados do primeiro semestre de 2026 indicam que o problema está longe de ser resolvido. Segundo o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, foram 741 feminicídios entre janeiro e junho deste ano — uma redução em relação aos 760 casos do mesmo período de 2025, mas ainda equivalente a uma média de quatro mulheres assassinadas por dia no país. O primeiro trimestre de 2026, isoladamente, chegou a ser classificado como o mais letal da série histórica para as mulheres, com 399 vítimas entre janeiro e março.

A queda registrada no primeiro semestre não é uniforme entre as regiões: Norte e Nordeste tiveram as maiores reduções percentuais, enquanto Sudeste, Sul e Centro-Oeste registraram alta nos números na comparação com o mesmo período do ano anterior. São Paulo segue como o estado com mais casos em números absolutos, seguido por Minas Gerais.

“Chegar a todas as mulheres, não importa o CEP”

Para Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil construiu nas últimas duas décadas um arcabouço legal avançado para o enfrentamento à violência de gênero — da Lei Maria da Penha à tipificação específica do feminicídio e do crime de perseguição —, mas o desafio atual é fazer essa proteção chegar a todas as mulheres, independentemente de onde vivem.

A avaliação da pesquisadora ajuda a explicar por que o país segue batendo recordes de feminicídio mesmo depois de duas décadas de avanços legislativos: ter uma lei no papel não garante que uma mulher ameaçada em uma cidade pequena do interior tenha, na prática, uma delegacia especializada, uma medida protetiva rápida ou um abrigo disponível quando precisa. É justamente nesse intervalo — entre a denúncia e a proteção efetiva — que a escalada de ameaças, agressões e perseguições registrada pelo FBSP volta a ganhar peso: cada um desses episódios é, também, uma oportunidade de intervenção que ainda não foi aproveitada em toda a sua extensão.

Onde buscar ajuda

Mulheres em situação de violência doméstica ou familiar podem buscar apoio pela Central de Atendimento à Mulher, no telefone 180, disponível 24 horas em todo o país, ou pelo Disque 100, canal de denúncias de violações de direitos humanos. Em caso de risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190.

Receba mensagem no WhatsApp