“Os pontos que separam Lula e Flávio Bolsonaro”: a diferença nacional é de só 1,87 p.p., mas nos estados vai de praticamente zero a quase 50 pontos
Flávio Bolsonaro abre até 48,20 pontos percentuais em Roraima e Lula chega a 46,87 no Piauí; no Amapá, a diferença é de 0,04 ponto. Disputas decididas por menos de 8 pontos, como Minas Gerais (4,92) e Tocantins (7,02), passam a ser o foco do 2º turno

Por Gilberto Martins | 6 de outubro de 2026
O primeiro turno da eleição presidencial de 2026 desenhou um Brasil partido ao meio — e com a balança pendendo, por ora, para a direita. Apurados 100% das urnas, o senador Flávio Bolsonaro (PL) terminou a disputa de domingo (4) com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta o quarto mandato. A diferença, de 1,87 ponto percentual (p.p.), equivale a cerca de 2,27 milhões de votos. Os dois voltam às urnas em 25 de outubro.
O resultado contrariou as pesquisas de intenção de voto, que apontavam o petista numericamente à frente às vésperas da eleição. E o mapa explica por quê: Flávio venceu em 15 unidades da federação — 14 estados e o Distrito Federal —, ganhou em todos os estados do Sudeste, do Sul e do Centro-Oeste, e avançou sobre o Norte. Lula ficou com 12 estados, sustentado por uma vitória ampla, porém menos folgada, no Nordeste.
QUADRO O placar por região
| Região | Flávio | Lula | Diferença | Saldo de votos* |
| Norte | 63,38% | 30,23% | Flávio +33,15 p.p. | +464 mil (Flávio) |
| Sul | 60,73% | 30,66% | Flávio +30,07 p.p. | +5,04 mi (Flávio) |
| Centro-Oeste | 57,16% | 33,26% | Flávio +23,90 p.p. | +2,17 mi (Flávio) |
| Sudeste | 51,99% | 39,67% | Flávio +12,32 p.p. | +5,66 mi (Flávio) |
| Nordeste | 31,64% | 62,94% | Lula +31,30 p.p. | +11,07 mi (Lula) |
| BRASIL | 47,03% | 45,16% | Flávio +1,87 p.p. | +2,27 mi (Flávio) |
Percentuais sobre votos válidos: apuração Exame/TSE, 100% das urnas. Diferença em pontos percentuais (p.p.). *Saldo calculado pela reportagem a partir dos votos por estado publicados pelo Metrópoles (sem votos do exterior).
Minas, o termômetro que virou
Nenhuma mudança no mapa é tão simbólica quanto a de Minas Gerais. Segundo maior colégio eleitoral do país e considerado um “microcosmo” do Brasil — com regiões influenciadas pelo Nordeste, pelo Centro-Oeste e pelo restante do Sudeste —, o estado tem um histórico que nenhuma campanha ignora: desde a redemocratização, em 1989, todo candidato que venceu em Minas também chegou à Presidência.
Em 2022, Lula derrotou Jair Bolsonaro no estado por apenas 49,7 mil votos. Agora, o filho do ex-presidente terminou à frente com 48,24% contra 43,32% do petista — uma vantagem de quase 590 mil votos. Se a escrita mineira se mantiver, é o dado mais preocupante para a campanha governista na reta final.
Sudeste: o motor da vantagem
Foi no Sudeste, onde se concentram os maiores colégios eleitorais, que Flávio construiu a maior parte da sua dianteira: 5,66 milhões de votos de saldo, somando os quatro estados. Só São Paulo respondeu por 3,42 milhões dessa diferença — Flávio teve 51,93% no estado, contra 38,20% de Lula.
No Rio de Janeiro, berço político da família Bolsonaro, o candidato do PL fez 53,01% e abriu 1,27 milhão de votos. No Espírito Santo, a vantagem foi de 54,78% a 37,76%. O governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito no primeiro turno, prometeu ampliar a frente no estado:
“São Paulo vai ser decisivo, podem ter certeza. Vai eleger Flávio Bolsonaro Presidente da República.” — Tarcísio de Freitas, na noite da apuração
Nordeste: a muralha de Lula tem rachaduras
O Nordeste segue sendo o grande trunfo do presidente. Lula venceu nos nove estados da região, com 62,94% dos votos válidos, e saiu de lá com um saldo de 11,07 milhões de votos — o maior de qualquer região, para qualquer candidato. A Bahia sozinha lhe deu 3,2 milhões de votos de vantagem; o Piauí entregou o seu melhor percentual no país, 70,97%.
Mas a muralha mostrou rachaduras. Em todos os estados nordestinos, o petista obteve uma fatia menor dos votos válidos do que havia conquistado contra Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022. No Piauí, caiu de 74,2% para cerca de 71%. Na Bahia, de 69,7% para 66,1%. No Ceará, de 65,9% para 63,2%. Alagoas foi o estado nordestino mais apertado: 54,73% para Lula, 40,45% para Flávio.
Na conta final, o desempenho no Nordeste não foi suficiente para compensar as derrotas no Sul e no Sudeste, que, somados, deram a Flávio 10,7 milhões de votos de saldo.
Sul e Centro-Oeste: os redutos bolsonaristas
No Sul, o domínio de Flávio foi esmagador. Santa Catarina deu ao senador 66,65% dos votos válidos — contra apenas 25,04% de Lula, o pior desempenho do petista fora do Norte. No Paraná, o placar foi de 59,91% a 31,20%; no Rio Grande do Sul, de 55,64% a 35,73%.
O Centro-Oeste, coração do agronegócio, repetiu o padrão. Mato Grosso deu 65,15% a Flávio; Mato Grosso do Sul, 58,60%. Em Goiás, Flávio fez 53,60% contra 31,06% de Lula — e o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), também candidato ao Planalto, terminou apenas em terceiro no próprio estado. No Distrito Federal, a vitória foi de 51,31% a 38,11%.
Norte: Tocantins muda de lado e o Amapá por um fio
A outra virada do mapa aconteceu no Tocantins. Em 2022, Lula havia vencido no estado com 50,4% contra 44% de Bolsonaro. Agora, Flávio ficou à frente com 50,44% contra 43,42%. Com isso, o campo bolsonarista passou a vencer na maioria dos estados da região Norte.
Roraima foi o estado mais bolsonarista do país: 71,06% para Flávio, contra 22,86% para Lula. Rondônia (67,45%) e Acre (64,56%) completaram o trio de vitórias largas do PL, repetindo o resultado de 2022. Lula manteve o Pará (49,90% a 44,51%) e o Amazonas (48,13% a 45,08%).
O caso mais dramático é o do Amapá. Lá, Lula ficou à frente por 225 votos — 212.503 contra 212.278, ou 45,71% a 45,67%. É a menor margem de toda a eleição e o motivo pelo qual parte da imprensa contabilizou o placar de estados como 15 a 12, e outra parte, como 15 estados e o DF para Flávio contra 11 para Lula.
Os pontos que separam os dois
No placar nacional, apenas 1,87 ponto percentual separa Flávio de Lula. Nos estados, porém, a distância varia de um empate técnico a quase 50 pontos — um retrato da polarização regional do voto.
As maiores vantagens do país estão nas pontas do mapa. Em Roraima, Flávio abriu 48,20 pontos sobre Lula — a maior diferença da eleição. No Piauí, foi Lula quem disparou: 46,87 pontos à frente. Santa Catarina (41,61 p.p.) e Rondônia (41,56 p.p.) completam a lista dos redutos mais folgados de Flávio; Bahia (37,54 p.p.) e Maranhão (33,02 p.p.), os de Lula.
Entre as regiões, o Norte foi a mais desequilibrada a favor de Flávio (33,15 p.p.), seguida pelo Sul (30,07 p.p.) e pelo Centro-Oeste (23,90 p.p.). No Nordeste, Lula ficou 31,30 pontos à frente. O Sudeste, embora tenha a menor diferença regional — 12,32 pontos —, é onde ela pesa mais, por concentrar o maior número de eleitores.
Na outra ponta, quatro estados foram decididos por menos de 8 pontos — e são eles que tendem a concentrar as atenções no segundo turno. O Amapá terminou praticamente empatado, com Lula apenas 0,04 ponto à frente. No Amazonas, o petista venceu por 3,05 pontos; em Minas Gerais, Flávio ganhou por 4,92; no Pará, Lula, por 5,39. O Tocantins (7,02 p.p. para Flávio) fecha a lista dos campos mais disputados.
QUADRO Do mais apertado ao mais folgado
| Faixa de diferença | Estados |
| Até 5 p.p. (disputa acirrada) | Amapá (Lula +0,04) · Amazonas (Lula +3,05) · Minas Gerais (Flávio +4,92) |
| De 5 a 15 p.p. | Pará (Lula +5,39) · Tocantins (Flávio +7,02) · DF (Flávio +13,20) · Rio de Janeiro (Flávio +13,60) · São Paulo (Flávio +13,73) · Alagoas (Lula +14,28) |
| De 15 a 30 p.p. | Espírito Santo (Flávio +17,02) · Rio Grande do Sul (Flávio +19,91) · Goiás (Flávio +22,54) · Mato Grosso do Sul (Flávio +23,92) · Rio Grande do Norte (Lula +24,98) · Paraíba (Lula +28,24) · Paraná (Flávio +28,71) |
| De 30 a 40 p.p. | Ceará (Lula +32,00) · Sergipe (Lula +32,12) · Pernambuco (Lula +32,42) · Maranhão (Lula +33,02) · Acre (Flávio +35,83) · Mato Grosso (Flávio +35,97) · Bahia (Lula +37,54) |
| Acima de 40 p.p. (domínio total) | Rondônia (Flávio +41,56) · Santa Catarina (Flávio +41,61) · Piauí (Lula +46,87) · Roraima (Flávio +48,20) |
Diferença em pontos percentuais sobre votos válidos. Cálculo da reportagem com base nos dados do Metrópoles.
A conta do segundo turno
Para virar o jogo em 25 de outubro, Lula precisa tirar uma diferença de cerca de 2,27 milhões de votos. Os demais candidatos somaram aproximadamente 7,8% dos votos válidos no primeiro turno, e o destino desse eleitorado será decisivo. Os primeiros sinais não são favoráveis ao presidente: Romeu Zema (Novo) afirmou que fará “oposição frontal” ao PT, e Augusto Cury (Avante) disse que deixará a política e descartou apoiar alguém no segundo turno.
Na noite de domingo, Lula admitiu a surpresa com o resultado:
“Estava convencido de que eu ia ganhar a eleição no primeiro turno.” — Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso após a apuração
A campanha petista fez uma reunião virtual logo após a divulgação dos números. O desafio das próximas três semanas está desenhado no mapa: ampliar ainda mais a margem no Nordeste e reduzir o prejuízo no Sudeste — especialmente em Minas Gerais, o estado que, há mais de três décadas, antecipa quem vai governar o país.
QUADRO Como votou cada estado
| Estado | Flávio | Lula | Vantagem (p.p.) |
| NORTE | |||
| Roraima | 71,06% | 22,86% | Flávio +48,20 p.p. |
| Rondônia | 67,45% | 25,89% | Flávio +41,56 p.p. |
| Acre | 64,56% | 28,73% | Flávio +35,83 p.p. |
| Tocantins (virada) | 50,44% | 43,42% | Flávio +7,02 p.p. |
| Pará | 44,51% | 49,90% | Lula +5,39 p.p. |
| Amazonas | 45,08% | 48,13% | Lula +3,05 p.p. |
| Amapá (225 votos) | 45,67% | 45,71% | Lula +0,04 p.p. |
| NORDESTE | |||
| Piauí | 24,10% | 70,97% | Lula +46,87 p.p. |
| Bahia | 28,58% | 66,12% | Lula +37,54 p.p. |
| Maranhão | 30,93% | 63,95% | Lula +33,02 p.p. |
| Pernambuco | 31,03% | 63,45% | Lula +32,42 p.p. |
| Ceará | 31,28% | 63,28% | Lula +32,00 p.p. |
| Sergipe | 30,63% | 62,75% | Lula +32,12 p.p. |
| Paraíba | 33,07% | 61,31% | Lula +28,24 p.p. |
| Rio Grande do Norte | 34,77% | 59,75% | Lula +24,98 p.p. |
| Alagoas | 40,45% | 54,73% | Lula +14,28 p.p. |
| CENTRO-OESTE | |||
| Mato Grosso | 65,15% | 29,18% | Flávio +35,97 p.p. |
| Mato Grosso do Sul | 58,60% | 34,68% | Flávio +23,92 p.p. |
| Goiás | 53,60% | 31,06% | Flávio +22,54 p.p. |
| Distrito Federal | 51,31% | 38,11% | Flávio +13,20 p.p. |
| SUDESTE | |||
| Espírito Santo | 54,78% | 37,76% | Flávio +17,02 p.p. |
| Rio de Janeiro | 53,01% | 39,41% | Flávio +13,60 p.p. |
| São Paulo | 51,93% | 38,20% | Flávio +13,73 p.p. |
| Minas Gerais (virada) | 48,24% | 43,32% | Flávio +4,92 p.p. |
| SUL | |||
| Santa Catarina | 66,65% | 25,04% | Flávio +41,61 p.p. |
| Paraná | 59,91% | 31,20% | Flávio +28,71 p.p. |
| Rio Grande do Sul | 55,64% | 35,73% | Flávio +19,91 p.p. |
Fonte: Metrópoles, com mais de 99% das urnas apuradas em cada estado. Percentuais sobre votos válidos; vantagem em pontos percentuais (p.p.).
QUADRO Números que contam
- 1,87 p.p. — a diferença nacional entre Flávio (47,03%) e Lula (45,16%)
- 48,20 p.p. — maior vantagem de Flávio (Roraima); a de Lula foi de 46,87 p.p. (Piauí)
- 0,04 p.p. — a diferença no Amapá, a menor do país
- 15 a 12 — unidades da federação vencidas por Flávio e Lula
- 2 — estados que mudaram de lado em relação a 2022: Minas Gerais e Tocantins
- 225 votos — a margem de Lula no Amapá, a menor da eleição
- 71% — melhor resultado de cada um: Flávio em Roraima, Lula no Piauí
- +3,42 milhões — vantagem de Flávio em São Paulo, a maior em um único estado
- +3,2 milhões — vantagem de Lula na Bahia, seu maior saldo estadual
- 13 + DF — unidades vencidas por Jair Bolsonaro no 1º turno de 2022
Fontes consultadas
