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É dia de Círio: o “Natal dos paraenses” renova promessas e milagres há 233 anos

Belém (PA), domingo, 11 de outubro de 2026

Amanhecer de fé na capital paraense

Belém acordou antes do sol neste segundo domingo de outubro. Desde a madrugada, famílias inteiras, romeiros descalços e promesseiros vindos de todo o Pará ocupam as ruas da Cidade Velha à espera da berlinda com a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré. A missa na Catedral Metropolitana, a Igreja da Sé, está marcada para as 6h, e a saída da procissão, para as 7h, rumo à Basílica Santuário de Nazaré.

A Diretoria da Festa de Nazaré (DFN) estima 2,3 milhões de pessoas na grande procissão — número que coloca o Círio entre as maiores manifestações religiosas do planeta. O percurso tem 3,6 quilômetros e duração prevista de cerca de seis horas. Na edição de 2026, o tema escolhido pela Arquidiocese de Belém é “Maria, Missionária que nos dá Jesus”.

O que é o Círio de Nazaré

O Círio é a principal festa religiosa do Pará e uma das maiores devoções marianas do mundo. O nome vem do latim cereus, a grande vela de cera levada nas procissões. Mais que um dia, trata-se de uma “quadra nazarena” de duas semanas: em 2026 são 14 procissões oficiais entre 7 e 26 de outubro, por terra, rios e estradas, que culminam na romaria deste domingo.

A festa é organizada pela Arquidiocese de Belém, pela Basílica Santuário e pela Diretoria da Festa de Nazaré. Foi registrada pelo Iphan como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 2004 e reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2013. Para o paraense, o Círio tem o peso do Natal: é dia de casa cheia, reencontro de parentes e mesa farta.

Como tudo começou

A devoção a Nossa Senhora de Nazaré nasceu em Portugal. Conta a tradição que, no século XII, o fidalgo Dom Fuas Roupinho perseguia um cervo em meio à neblina, na vila de Nazaré, quando seu cavalo parou à beira de um penhasco. Ele havia clamado pela Virgem e atribuiu o livramento a ela. A devoção atravessou o Atlântico com os colonizadores portugueses.

Em Belém, a história ganha um personagem do povo: o caboclo Plácido José de Souza. Por volta de 1700, ele encontrou uma pequena imagem de madeira da Virgem às margens do igarapé Murutucu, onde hoje está a Basílica. Levou-a para casa, mas, segundo o relato, a imagem voltava sozinha ao local do achado. Mesmo depois de ser levada ao Palácio do Governo e vigiada por guardas, ela reaparecia no barranco. Plácido ergueu ali uma ermida — e o lugar virou ponto de peregrinação.

A primeira procissão oficial aconteceu em 8 de setembro de 1793, autorizada pelo então governador da capitania, Francisco de Souza Coutinho. Mais tarde, a festa foi transferida para o segundo domingo de outubro, data que se mantém até hoje. Em 2026, o Círio completa 233 anos de história.

O trajeto: da Sé à Basílica

A grande procissão sai da Catedral Metropolitana, na Cidade Velha, berço da cidade, e segue pela rua Padre Champagnat, avenida Portugal, Boulevard Castilhos França, avenida Presidente Vargas e avenida Nazaré, até a Praça Santuário, diante da Basílica. É o caminho inverso ao da Trasladação, feita na noite anterior, que leva a imagem da Basílica até a Sé.

À frente da berlinda seguem os carros e barcas simbólicos — entre eles os chamados carros dos milagres e de promessas, que recolhem ex-votos e objetos dos fiéis —, além de bandas e escolas. Pela primeira vez, os carros ficaram expostos no Complexo Porto Futuro 2, novo ponto de concentração. Ao longo das avenidas, sacadas enfeitadas, chuva de papel picado, fogos e o canto do hino “Vós sois o lírio mimoso” acompanham a passagem da santa.

A corda: o elo entre o povo e a santa

Nenhum símbolo do Círio é tão forte quanto a corda. Ela surgiu em 1855, quando uma enchente da Baía do Guajará alagou o trecho entre o Ver-o-Peso e as Mercês e a berlinda atolou na lama; foi preciso uma corda para que os fiéis a puxassem. A solução virou tradição e, depois, penitência.

Em 2026, a corda tem 800 metros de fibra de malva, divididos em dois trechos de 400 metros — um para a Trasladação e outro para o Círio — e 60 milímetros de diâmetro. Desde 2023 ela é produzida no próprio Pará, pela Companhia Têxtil de Castanhal; antes vinha de Santa Catarina, em sisal. Desde 2004, por segurança, tem formato linear e é dividida em cinco estações de duralumínio, que dão tração e ritmo à caminhada.

Na corda vão os promesseiros mais fervorosos: muitos chegam de madrugada para garantir um lugar, caminham descalços, sob calor intenso e apertados por milhares de corpos, por horas a fio. Ao fim, pedaços da corda são disputados e guardados como relíquias, colocados em altares domésticos ou levados a doentes da família.

Os peregrinos: quem caminha com Nazaré

O romeiro do Círio é, antes de tudo, o povo paraense: moradores das periferias de Belém, ribeirinhos das ilhas, gente do interior que viaja dias de barco ou ônibus. Somam-se a eles devotos de outros estados, brasileiros que vivem no exterior e turistas que chegam pela curiosidade e saem tocados pela emoção.

As formas de pagar promessa são tão diversas quanto as graças pedidas:

  • caminhar descalço ou de joelhos parte do percurso;
  • carregar sobre a cabeça casas, barcos e objetos de miriti, a delicada artesania de Abaetetuba, que representam a casa conquistada ou o trabalho alcançado;
  • levar réplicas de cera de partes do corpo curadas — cabeças, pernas, corações;
  • vestir as crianças de anjo ou com o manto azul e branco de Nossa Senhora;
  • segurar a corda do início ao fim da procissão.

No caminho, uma rede espontânea de solidariedade se forma: moradores distribuem água, frutas e refeições, e voluntários da Guarda de Nazaré, da Cruz Vermelha e de serviços de saúde atendem quem passa mal no esforço.

Milagres e graças alcançadas

A fé nos milagres é o combustível do Círio. Na missa que antecedeu a Trasladação, no Colégio Gentil Bittencourt, a chef de cozinha Deusa Silva contou que voltou para agradecer: há sete anos, depois de uma promessa feita na Basílica, dois nódulos nos seios desapareceram em novos exames, e a cirurgia prevista pela médica deixou de ser necessária.

A empresária Carol Boralli, de 43 anos, moradora do Coqueiro, caminhou para cumprir a promessa feita ao pedir para ser mãe. Ela descobriu a gravidez em dezembro, e a pequena Ana nasceu em agosto — a bebê, com quase dois meses, ficou em casa enquanto a mãe agradecia nas ruas.

Até a cantora Dona Onete, ícone da música paraense, emocionou o público ao relatar que passou quatro vezes pela sala vermelha de um hospital. Em cada uma, disse, pedia: “Nossa Senhora, me dê a mão”. Ela atribui à santa a própria recuperação.

Histórias assim se repetem aos milhares: curas, empregos, casas, filhos, travessias de rio feitas em segurança. Os ex-votos depositados nos carros dos milagres formam, ano após ano, um retrato material dessa devoção.

A Trasladação de ontem: corda rompida e cinco horas de procissão

A véspera já anunciava a intensidade deste domingo. A Trasladação saiu às 18h de sábado (10) do Colégio Gentil Bittencourt, sob leve chuva, e só chegou à Igreja da Sé às 23h18. Logo no início, a corda se rompeu, e a berlinda ficou parada por quase uma hora em frente à Praça Santuário. Depois, o cortejo avançou lentamente pela avenida Nazaré, enquanto devotos levavam nas mãos pedaços avulsos da corda.

Na missa de abertura, o arcebispo metropolitano Dom Julio Akamine reforçou o tema do ano e apresentou Maria como grande educadora do amor. A berlinda, decorada por Djan Slaviero com o tema “Paz que flutua sobre a multidão”, reuniu flores brancas com toques de rosa — rosas, hortênsias, bocas-de-leão e orquídeas — num efeito de nuvem ao redor da imagem.

A noite teve ainda Fafá de Belém cantando “Eu Sou de Lá” na Varanda de Nazaré, o apresentador Marcos Mion caminhando no meio da multidão e show gratuito de Frejat na Vila do Círio Iluminado, na praça Waldemar Henrique. Ambulantes aproveitaram o movimento: churrasquinho e coxinha com suco saíam a R$ 10.

A quadra nazarena: 14 procissões

O Círio de domingo é o ápice de uma programação que mobiliza a região metropolitana. Entre as romarias de 2026 estão o Traslado dos Carros (7/10), o Traslado para Ananindeua e Marituba (9/10), com 58 km e cerca de 1,5 milhão de pessoas, a Romaria Rodoviária, a Romaria Fluvial pela Baía do Guajará, a Motorromaria, a Trasladação (1,9 milhão de pessoas previstas), o Círio, a Romaria das Crianças, a Romaria da Juventude e a Procissão da Festa, entre outras. O encerramento ocorre com o Recírio, que devolve a imagem à Basílica.

O almoço do Círio: o banquete da fé

Terminada a procissão, Belém se recolhe às mesas. O almoço do Círio é sagrado como a ceia de Natal e reúne parentes que vêm de longe. Dois pratos são indispensáveis:

  • Pato no tucupi: o pato assado e depois cozido no tucupi, caldo amarelo extraído da mandioca brava, servido com jambu — a folha que adormece a boca — e arroz.
  • Maniçoba: a “feijoada paraense”, feita com a folha da mandioca moída e cozida por cerca de sete dias para eliminar o veneno natural, depois enriquecida com carnes salgadas e defumadas.

Completam a mesa farinha d’água, arroz paraense, açaí, cupuaçu e sobremesas regionais. À tarde, o tacacá servido em cuia nas esquinas é a pedida de quem ainda está nas ruas. Há famílias que preparam a maniçoba a semana inteira e que recebem dezenas de convidados — a regra é nunca deixar alguém sem prato.

Belém além da procissão: roteiro de fé e sabor

Basílica Santuário de Nazaré. Erguida no local do achado da imagem, teve a construção iniciada em 1909, inspirada na Basílica de São Paulo Extramuros, em Roma. Mármores, vitrais e mosaicos impressionam. No alto do altar-mor fica o Glória, nicho onde repousa a Imagem Original encontrada por Plácido; a peregrina é a que sai às ruas.

Ver-o-Peso. O mercado centenário, à beira da Baía do Guajará, nasceu no século XVII como posto de fiscalização de mercadorias — “haver o peso” — e é hoje a maior feira livre da América Latina. O Mercado de Ferro, de estrutura vinda da Europa, e o Mercado de Carne são cartões-postais. Ali se encontram peixes amazônicos, açaí, frutas, farinhas, castanhas e artesanato.

O banho de cheiro. Nas barracas das erveiras do Ver-o-Peso se compram as garrafadas e os banhos de cheiro, misturas de ervas e raízes aromáticas da Amazônia — como priprioca, patchouli, cumaru, catinga-de-mulata e pau-d’angola. Herança indígena, africana e cabocla, o banho é usado para atrair sorte, amor e proteção e afastar o “mau-olhado”. Muitos devotos se banham antes do Círio ou levam o preparo como lembrança, junto com perfumes regionais.

Estação das Docas. Antigos armazéns do porto transformados em complexo gastronômico e cultural; neste ano abrigou a exposição da corda do Círio.

Cidade Velha. A Catedral da Sé, o Forte do Presépio — marco da fundação de Belém, em 1616 —, a Casa das Onze Janelas e a Igreja de Santo Alexandre formam o núcleo histórico.

Theatro da Paz e Praça da República. Joias do ciclo da borracha, no coração da cidade.

Mangal das Garças e Museu Paraense Emílio Goeldi. Espaços verdes para conhecer a fauna e a flora amazônicas.

Círio 2026 em números

Os números da fé
Edição233 anos desde a 1ª procissão (1793)
Tema“Maria, Missionária que nos dá Jesus”
Público estimado no Círio2,3 milhões de pessoas
Percurso do Círio3,6 km — Catedral da Sé → Basílica
Duração previstacerca de 6 horas (saída às 7h)
Trasladação (10/10)18h → 23h18; público previsto de 1,9 milhão
Corda800 m de malva (2 × 400 m), 60 mm, 5 estações
Procissões da quadra14, de 7 a 26 de outubro
PatrimônioIphan (2004) e UNESCO (2013)

Fé que atravessa gerações

Quando a berlinda chegar à Praça Santuário, a multidão vai cantar, chorar e aplaudir — e muitos já estarão fazendo a promessa do ano que vem. O Círio não termina no domingo: ele continua nas casas, nas mesas, nas fitas amarradas no pulso e na certeza de cada romeiro de que a Rainha da Amazônia caminha ao lado de seu povo.

Fontes consultadas: O Liberal; Diário do Pará; Portal Amazônia; Diretoria da Festa de Nazaré (roteiro oficial do Círio 2026). Dados de público são estimativas da organização.

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