A herança deixada para quem assumir o próximo governo do Amazonas

Manaus (AM), 31 maio de 2026 |
Em janeiro de 2027, quem tomar posse no Palácio Rio Negro vai receber um estado com orçamento perto dos R$ 35 bilhões, uma dívida consolidada acima de R$ 9 bilhões, 47% da população sem saneamento básico, facções criminosas presentes em mais de 40% dos municípios e uma lista de obras prometidas que nunca saíram do papel. Oito anos de gestão Wilson Lima deixam um retrato ambíguo: conquistas reais num estado que avançou menos do que poderia.
Esta reportagem mapeou, com base em dados do Portal da Transparência do Amazonas, relatórios do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, da SEFAZ-AM, do IBGE, do IDEB e da imprensa especializada, os oito passivos estruturais que o próximo governador terá como primeira pauta quando cruzar a porta do Palácio.
1. A BOMBA FISCAL: R$ 9,28 BILHÕES DE DÍVIDA E R$ 2,1 BI QUE FOGEM TODO ANO
O Amazonas encerrou 2023 com uma dívida consolidada de R$ 9,28 bilhões — alta de 4,77% em relação ao ano anterior, puxada por operações de crédito com o Banco do Brasil. Para 2025, o governo reservou R$ 2,1 bilhões apenas para pagar o serviço dessa dívida (juros e amortizações), o equivalente a 6,78% de toda a receita prevista na LOA.
Para ter dimensão: esses R$ 2,1 bilhões são suficientes para construir aproximadamente 210 unidades básicas de saúde no interior, ou garantir dois anos de funcionamento do programa Auxílio Estadual para 300 mil famílias. Em vez disso, vão para bancos e para o Tesouro Nacional.
| INDICADOR | VALOR | IMPACTO |
| Dívida Consolidada (dez/2023) | R$ 9,28 bilhões | +4,77% vs 2022 |
| Serviço da dívida previsto (LOA 2025) | R$ 2,1 bilhões/ano | 6,78% da receita total |
| Inadimplência de contribuintes | 221 mil devedores | Refis 2025 tentou recuperar R$ 50 mi |
⚠ ALERTA: O próximo governador terá que negociar com o Tesouro Nacional o perfil desta dívida antes mesmo de anunciar qualquer programa novo. Sem esse acerto, o orçamento de investimentos será engolido pelos juros.
2. O ESCÂNDALO DO SANEAMENTO: METADE DO ESTADO SEM ÁGUA TRATADA
Na maior bacia hidrográfica do planeta, mais de 2 milhões de amazonenses — 47,4% da população — vivem sem cobertura permanente de saneamento básico. O dado é do IBGE 2024 e não tem precedente aceitável num estado que acumulou R$ 160 bilhões em despesas ao longo de oito anos de governo.
“O esgotamento sanitário é inexistente de forma coletiva nos municípios do interior. Os resíduos sólidos são descartados em lixões a céu aberto e a drenagem urbana não é sistematizada, resultando em alagamentos frequentes.” — Revista Scientia Alpha, 2025
Em doze anos de concessão privada da água em Manaus, a situação pouco mudou: a cobertura de água canalizada na capital é de apenas 76,2% — com tarifas 18,6% mais caras do que a média nacional. O Amazonas permanece na 23ª posição nacional no ranking de saneamento básico, mesmo após bilhões investidos no PROSAMIN+. E o PROSAMIN+ em si, considerado a principal entrega do governo na área, concluiu apenas a primeira das quatro etapas previstas — as três restantes estão projetadas para 2027 e além, ou seja, serão herança do próximo governador.
No interior, a situação é ainda mais crítica: em quase metade dos municípios, a água canalizada cobre menos de 70% dos domicílios; em alguns, nem 50% dos moradores têm acesso a essa infraestrutura mínima. O aterro controlado de Manaus, às margens da AM-010, está próximo do fechamento, e o novo aterro sanitário — prometido para o bairro Tarumã — ainda não foi construído.
Cobertura de saneamento no Amazonas (IBGE 2024): 52,6% (2 concessionárias cobrem apenas 2,25 milhões de pessoas)
Posição no ranking nacional de saneamento: 23º lugar
PROSAMIN+ etapas concluídas até 2026: 1 de 4 (75% da obra ficou para o próximo governo)
Prazo para o novo aterro sanitário de Manaus: 2028 — obra ainda não iniciada
3. A GUERRA SILENCIOSA: FACÇÕES EM 40% DOS MUNICÍPIOS
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 é direto: o Amazonas voltou a figurar entre os estados mais violentos do país. Manaus aparece entre as capitais com maiores taxas de assassinatos do Brasil. E o cenário no interior é igualmente alarmante.
“As facções, majoritariamente ligadas ao narcotráfico, veem na Amazônia e nos crimes ambientais novas formas de ganhar dinheiro e lavar dinheiro.” — Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, novembro de 2025
O levantamento ‘Cartografias da Violência na Amazônia 2025’ do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelou que o número de municípios da Amazônia Legal sob influência de facções criminosas cresceu 32% em apenas um ano: de 260 (2024) para 344 (2025). No Amazonas especificamente, organizações criminosas estão presentes em mais de 40% dos municípios.
Na Tríplice Fronteira, Tabatinga registrou taxa média de 57,6 mortes violentas por 100 mil habitantes entre 2022 e 2024 — uma das mais altas do país — sendo uma das principais portas de entrada de drogas pela Rota do Solimões. O Governo do Estado até apresenta números de redução de homicídios dolosos (1.326 casos em 2024 contra 1.555 em 2023, queda de 14,7%, segundo o Atlas da Violência 2026), mas a taxa de 32,2 mortes por 100 mil habitantes ainda é muito superior à média nacional.
O que o próximo governador receberá não é apenas o crime de rua: é uma estrutura de economia ilícita que se mesclou ao garimpo ilegal, ao desmatamento e ao tráfico de pessoas nas calhas mais remotas.
Municípios amazonenses com presença de facções (2025): mais de 40% dos 62 municípios
Taxa de homicídios (2024): 32,2 por 100 mil hab. (acima da média nacional de ~22)
Rejeição do governador em Manaus (AtlasIntel, jul/2024): 66% — a maior entre os governadores das capitais amazônicas
4. DOIS AMAZONAS NA SAÚDE: COBERTURA FRACA NA CAPITAL, ABANDONO NO INTERIOR
O Hospital Delphina Aziz virou cartaz de campanha e referência real — acreditação ONA nível 3, transplantes renais e hepáticos, 362 leitos. O Opera+ entregou 336 mil cirurgias em 2025. São conquistas legítimas. Mas existe outro Amazonas, invisível nas estatísticas do governo, que sobrevive sem especialistas, sem UTI, sem estrutura de emergência.
Das 58 UTIs implantadas em municípios-polo, grande parte atende apenas sedes regionais — cidades como Tefé, Coari, Lábrea e Humaitá. Municípios menores das calhas do Alto Juruá, Alto Solimões e Alto Rio Negro continuam dependendo de transferências de emergência de barco ou avião para Manaus, um processo que pode levar dias. Populações indígenas em São Gabriel da Cachoeira, nas calhas do Içana e Uaupés, ainda enfrentam o desafio da malária endêmica e da desnutrição infantil sem resposta adequada do sistema estadual.
“O relatório reitera o papel fundamental dos Agentes Comunitários de Saúde e descreve obstáculos concretos ao acesso à atenção primária: falta de profissionais, ausência de insumos e distâncias que tornam o deslocamento inviável.” — Instituto Veredas e Umane, pesquisa 2024-2025 sobre saúde em áreas isoladas na Amazônia
A rede de saúde mental é outro vazio histórico. A inauguração da primeira Unidade Estadual de Saúde Mental do país, em outubro de 2025, foi celebrada — mas a rede de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) no interior é insuficiente para atender uma população que convive com violência, isolamento, uso de drogas e alcoolismo em proporções alarmantes.
⚠ ALERTA: O próximo governador herdará uma fila de cirurgias que cresceu nas calhas do Purus e do Juruá, onde os 62 municípios menores dependem de um sistema de saúde que ainda opera no modelo do século passado: barco, improviso e sorte.
5. ESCOLAS BONITAS, APRENDIZADO INSUFICIENTE: O PARADOXO DA EDUCAÇÃO
O governo Wilson Lima construiu 212 escolas de tempo integral — crescimento de 186,5% em sete anos. Os números de infraestrutura impressionam. O problema é o que acontece dentro dessas escolas.
O IDEB nacional de Ensino Médio em 2023 foi 4,1 para a rede estadual brasileira — e o Amazonas, apesar de ter avançado no indicador de fluxo (aprovação), ainda apresenta indicadores de aprendizagem abaixo do desejável. A nota padronizada do Ensino Médio nacional caiu de 2019 para 2023, e o Amazonas, apesar de estar entre os poucos estados que evoluíram no indicador de aprendizagem, ainda tem muito a percorrer para atingir padrões competitivos.
Fora da capital, professores em municípios como Jutaí, Ipixuna e Santa Isabel do Rio Negro convivem com salas sem teto adequado, sem internet, sem material didático e com salários que não compensam o custo de vida do interior. A evasão escolar permanece elevada nestas regiões — filhos de ribeirinhos que abandonam a escola para trabalhar na pesca, no garimpo ou no tráfico. Nenhum programa do governo conseguiu romper esse ciclo estrutural nos últimos oito anos.
- Conectividade digital nas escolas do interior: praticamente inexistente nas calhas mais remotas;
- Professores efetivos nos municípios mais distantes: número insuficiente — dependência de contratos temporários;
- Transporte escolar fluvial: sem política estadual estruturada para as crianças ribeirinhas;
- Merenda escolar: irregularidades na distribuição para escolas do interior relatadas recorrentemente.
6. LIXÕES A CÉU ABERTO E IGARAPÉS MORTOS: A CRISE AMBIENTAL URBANA
Em 2026, Manaus convive com igarapés que funcionam como esgoto a céu aberto, com bairros que alagam em qualquer chuva forte e com um aterro controlado na AM-010 que está no limite da capacidade.
“Não faz qualquer sentido, o Brasil que recepcionou o Fórum Mundial de Economia Circular e a COP 30 na região amazônica, ainda se deparar com situações lamentáveis como lixões em operação.” — Especialista em gestão de resíduos, ABREMA, 2025
Os catadores de materiais recicláveis trabalham sem equipamento de proteção adequado e relatam contato com seringas, produtos químicos e materiais biológicos. A privatização do saneamento em Manaus, que já dura mais de duas décadas, gerou três CPIs nos últimos 25 anos sem resolver o problema. Mesmo com a entrada da Aegea (Águas de Manaus), a cobertura continua estagnada e a tarifa é 18,6% mais cara que a média nacional.
No interior, 62 municípios enfrentam o mesmo ciclo: sem coleta regular de lixo, sem aterro sanitário, sem tratamento de esgoto, sem drenagem pluvial. O rio, que dá vida à Amazônia, é também o destino do lixo e do esgoto de comunidades inteiras.
7. AS OBRAS QUE FICARAM NO PAPEL: PROMESSAS NÃO CUMPRIDAS
Uma reportagem publicada em março de 2026, revelou que o governo Wilson Lima Mas não entregou várias obras estratégicas prometidas em campanha e que seguem atrasadas ou simplesmente não saíram do papel.
Entre as pendências identificadas:
- Obras de saúde prometidas para o interior que não foram entregues dentro do prazo de mandato;
- Projetos de turismo em Manaus e no interior com obras paralisadas ou sem previsão de conclusão;
- Mobilidade urbana em Manaus: o corredor de transporte público prometido para a Zona Leste ainda não foi concluído;
- PROSAMIN+: 75% do projeto de saneamento da capital ficou para o próximo governo;
- Conectividade fluvial: dezenas de municípios ainda sem terminal flutuante estruturado;
- Aterro sanitário de Manaus: projeto ainda sem início de obra, com prazo legal de 2028;
- Habitação popular: o programa Amazonas Meu Lar entregou unidades, mas a demanda por moradia em áreas de risco em Manaus continua crescendo.
A ausência de um painel público de obras por município — com foto, percentual de execução e datas reais — tornou difícil a fiscalização. O próximo governador precisará fazer, no primeiro mês, uma auditoria obra a obra para saber o que está de pé, o que é maquete e o que é anúncio.
8. O PASSIVO POLÍTICO: 66% DE REJEIÇÃO E UMA CAPITAL SEM ENTREGA
Em julho de 2024, uma pesquisa da AtlasIntel revelou que 66% dos manauaras rejeitam Wilson Lima. Nenhum indicador isolado traduz melhor o fosso entre o discurso de governo e a percepção de quem vive na cidade.
Manaus concentra 55% da população do estado tem grande dos eleitores que votam. É também onde os problemas mais visíveis se acumulam: trânsito caótico, cratera que engole carro no bairro Cidade Nova, Máfia dos Flanelinhas próxima à Arena da Amazônia, queimadas que fecharam escolas e deixaram Manaus com uma das piores qualidades de ar do mundo em outubro de 2025, deslizamentos que matam famílias inteiras na estação das chuvas.
A estratégia de Wilson Lima de focar os dois anos finais no interior — para construir uma base eleitoral para o Senado — deixou a capital com a sensação de abandono. O próximo governador receberá uma Manaus que desconfia do estado e um interior que, apesar dos investimentos, ainda tem problemas básicos não resolvidos.
“Manaus foi novamente sufocada pela fumaça das queimadas, registrando uma das piores qualidades de ar do mundo e forçando a suspensão de aulas.” — Registro jornalístico, outubro de 2025
O PLACAR DA HERANÇA: O QUE ENTRA NO COLO DO PRÓXIMO GOVERNADOR
| # | PASSIVO | O QUE ESPERA O PRÓXIMO GOVERNADOR |
| 1 | Bomba fiscal | Dívida de R$ 9,28 bi + R$ 2,1 bi/ano em juros e amortizações |
| 2 | Saneamento inexistente | 47,4% da população sem cobertura; 3 etapas do PROSAMIN+ inacabadas |
| 3 | Crime organizado | Facções em +40% dos municípios; taxa de homicídios acima da média nacional |
| 4 | Saúde desigual | Interior sem especialistas, sem UTI e com malária endêmica no Alto Rio Negro |
| 5 | Educação sem aprendizado | Escolas novas sem internet, sem professor fixo, com evasão no interior |
| 6 | Lixões e igarapés poluídos | Aterro de Manaus no limite; interior sem coleta; igarapés mortos na capital |
| 7 | Obras inacabadas | Saneamento, mobilidade, saúde e turismo com projetos parados ou atrasados |
| 8 | Passivo político | 66% de rejeição em Manaus; capital com sensação de abandono |
A FATURA CHEGOU
Governar é escolher — e as escolhas do governo Wilson Lima dos últimos oito anos criaram um conjunto de passivos que o próximo governador não poderá ignorar nem no primeiro dia, nem no primeiro ano.
A herança maldita é um fracasso total. É o peso natural de um estado complexo que cresceu menos do que seu orçamento. E agora, em 2027, quem assumir o Palácio Rio Negro terá diante de si uma conta que não escolheu, mas que terá que pagar — enquanto tenta, ao mesmo tempo, construir algo novo para os 4,2 milhões de amazonenses que ainda esperam que o estado chegue de verdade até eles.
Fontes: SEFAZ-AM, Portal da Transparência do Amazonas, LOA 2025, Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Cartografias da Violência 2025), Atlas da Violência 2026, IBGE 2024, Vocativo/O Eco, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, ABREMA, Revista Scientia Alpha, Todos Pela Educação, Agência Amazonas de Notícias.
