Brasil

Seca põe hidrovias da Amazônia e do Pantanal em alerta

Relatório federal mostra rio Madeira abaixo do nível de restrição, Tapajós perto de 3 metros e seca extrema no rio Paraguai

Tapajós-Caroline Hardt/Folhapres

As principais hidrovias da Amazônia e do Pantanal estão em alerta para o transporte de cargas e passageiros por causa da seca, segundo relatório do Ministério de Portos e Aeroportos obtido pela Folha. O alerta não equivale a declaração formal de emergência nem a suspensão da navegação.

O documento, da área de planejamento sustentável da Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação, retrata a situação em 30 de setembro, com dados consultados até 5 de outubro. A previsão de menos chuva em parte da Amazônia nos próximos meses aumenta a preocupação com rotas que abastecem cidades e comunidades ribeirinhas e escoam grãos e minério para exportação.

Madeira: abaixo da marca de restrição

Em Porto Velho (RO), o rio marcou 3,07 metros em 30 de setembro, após queda de 1,37 metro no mês. A referência para “início da restrição” é 4 metros; para “parada de navegação”, 2 metros.

O nível, porém, está bem acima dos 49 centímetros registrados na mesma data de 2024. A previsão indica níveis próximos da mediana histórica e início da subida ainda em outubro.

O Madeira liga Porto Velho ao rio Amazonas e transportou 12,1 milhões de toneladas de soja e milho em 2025. Também leva combustíveis e produtos essenciais a municípios ribeirinhos.

Tapajós: pontos críticos e dragagem cancelada

No Pará, o relatório aponta profundidades de 3,15 metros em Itapaiúna e 2,99 metros em Monte Cristo, pontos críticos para a navegação. Em Itaituba, o nível era de 2,40 metros (queda de 1,91 metro em setembro); em Santarém, 2,63 metros (queda de 2,10 metros). A previsão para ambas é de níveis abaixo da mediana histórica.

Grãos, sobretudo de Mato Grosso, chegam de caminhão pela BR-163 aos terminais de Miritituba, em Itaituba, e seguem em barcaças. A hidrovia transportou 2,38 milhões de toneladas no primeiro bimestre de 2026, 86% de soja e milho, além de fertilizantes e granéis líquidos.

Em agosto, entidades mobilizadas pela Frente Parlamentar da Agropecuária estimaram impacto de até R$ 850 milhões pela falta de dragagem, com migração de cargas para caminhões e aumento de custos. Em setembro, o Dnit cancelou licitação de R$ 74,8 milhões para dragagem do rio, após avaliação técnica e diálogo com povos indígenas e comunidades tradicionais contrários à obra.

Negro e Solimões: cenários opostos

Em Manaus (AM), o rio Negro marcou 18,80 metros em 30 de setembro, após queda de 5,21 metros no mês, 1,72 metro abaixo da mediana histórica. Ainda assim, superou os 13,14 metros da mesma data de 2024. Há risco de bancos de areia restringirem a passagem em trechos do Negro e do Solimões, inclusive entre Manaus e Coari.

No Solimões, o quadro é mais favorável: Tabatinga registrava 3,47 metros e Coari, 6,70 metros, ambos acima da mediana e na faixa normal. Em Tabatinga, o rio subiu 41 centímetros na última semana de setembro.

Paraguai: seca extrema persiste

No Pantanal, três pontos do rio Paraguai estavam na faixa inferior de normalidade em 30 de setembro:

  • Cáceres (MT): 77 centímetros, ante mediana de 1,42 metro
  • Ladário (MS): 1,18 metro, ante 2,55 metros
  • Porto Murtinho (MS): 2,38 metros, ante 4,48 metros

Segundo o relatório, “manteve-se o cenário de seca extrema na bacia do Paraguai”, com previsão de cotas abaixo de 1 metro em Ladário em outubro e novembro. A hidrovia leva cargas a portos da Argentina e do Uruguai. Na seca de 2024, a movimentação caiu para 3,3 milhões, cerca de 58% a menos que no ano anterior.

Perspectiva

Para outubro a dezembro, o relatório prevê menos chuva em parte da Amazônia e piora na oferta de água nas bacias do Madeira, Negro e Tapajós. O risco exige acompanhamento, mas não permite afirmar que haverá paralisação em todas as hidrovias.

O que diz o governo

O ministério afirmou manter contratos de dragagem de manutenção nos rios Madeira, Amazonas, Solimões e Paraguai. Segundo a pasta, esse tipo de dragagem não aprofunda o leito, apenas desassoreia trechos; a navegação segue autorizada até o nível mínimo, quando se avalia alívio de carga ou interrupção do transporte.

  • Amazonas e Solimões: oito contratos de obras e supervisão somam R$ 459,48 milhões, com duração de cinco anos, no segundo ano de execução. Os serviços desta etapa começaram na primeira quinzena de setembro, dentro do Plano Anual de Dragagem de Manutenção Aquaviária.
  • Madeira: R$ 123,26 milhões para obras entre Porto Velho e a foz do Amazonas, incluindo a travessia da BR-230. O contrato está no primeiro de três anos, com conclusão prevista até novembro de 2029. A supervisão, estimada em R$ 29,08 milhões, está em licitação. A contratação veio após as estiagens severas de 2023 e 2024.
  • Paraguai: R$ 69,6 milhões para obras, R$ 15,42 milhões para supervisão e R$ 9,57 milhões para gestão ambiental. Os contratos estão no terceiro de cinco anos.
  • Tapajós: a contratação da dragagem de manutenção foi suspensa por decisão do governo federal.
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