Omar Aziz e Eduardo Braga blindam o interior do Amazonas e desidratam o União Brasil rumo a 2026
A reta final da pré-campanha amazonense tem um movimento que se tornou o fato político mais consistente dos últimos meses: a migração em cadeia de prefeitos do interior — e também de lideranças de projeção estadual e federal, como o ex-superintendente da Suframa Bosco Saraiva — para a aliança liderada pelo senador Omar Aziz (PSD), pré-candidato ao Palácio Rio Negro, em parceria direta com o senador Eduardo Braga (MDB), que disputa a reeleição à Casa Alta. Sob o guarda-chuva do movimento “Amazonas Forte de Novo”, a dupla vem montando, município a município, a maior estrutura de prefeitos já reunida em torno de um único projeto estadual — e fazendo isso majoritariamente às custas do União Brasil, partido que comandava o Executivo estadual havia oito anos.

Uma onda de filiações que não parou em março
O movimento começou a ganhar corpo a partir de fevereiro e se intensificou num ritmo raramente visto na política amazonense: em poucas semanas, mais de uma dezena de prefeitos trocaram de legenda para se filiar ao PSD de Omar Aziz, a maioria vinda justamente do União Brasil.
A primeira leva, em torno de um feriado prolongado, já trouxe nomes de peso do Médio Solimões e da região do Rio Madeira: os prefeitos Emerson Melo, de Beruri, e Otávio Farias, de Novo Airão, deixaram as fileiras do União Brasil para se filiar ao PSD de Omar Aziz, presidente estadual da sigla. Na sequência, vieram os prefeitos Nicson Marreira, de Tefé, Matulinho Braz, de Caapiranga, e Socorro Nogueira, de Rio Preto da Eva, além de Anderson Souza, então presidente da Associação Amazonense dos Municípios.
A onda não desacelerou. Dias depois, chegou a vez do prefeito de Codajás, Antônio Ferreira dos Santos, conhecido como Tonho, que oficializou filiação ao PSD em mais um movimento de fortalecimento do grupo político de Omar Aziz. Quase simultaneamente, somaram-se ao partido a prefeita de Nhamundá, Marina Pandolfo, o prefeito de São Paulo de Olivença, Gibe Martins, e o ex-prefeito de Eirunepé, Raylan Barroso, levando o PSD à marca de nove prefeitos filiados em menos de duas semanas — sem contar os já eleitos pela sigla em 2024. Pouco depois, o prefeito de Novo Aripuanã também aderiu ao projeto, ampliando ainda mais a presença do partido na região do Madeira.
Esse fluxo de adesões teve, inclusive, um momento de mobilização simbólica: em encontro na residência do senador, em março, Omar Aziz reuniu 36 prefeitos em exercício, além de 27 ex-prefeitos e cinco deputados estaduais, em um gesto interpretado como demonstração de força para a pré-candidatura ao governo.
A aliança “Amazonas Forte de Novo” e o tamanho real da base
O PSD, porém, é só uma das peças do tabuleiro. A força da chapa Aziz-Braga vem da soma de partidos. Segundo levantamento mais recente, a aliança reúne, além do PSD, o MDB do senador Eduardo Braga, com 15 prefeitos, o Republicanos, com nove gestores municipais, e o PT, com dois prefeitos, formando uma das estruturas municipais mais robustas já montadas no estado para uma eleição.
Vale notar que essa engrenagem não se limita aos prefeitos: nomes como o deputado estadual Wilker Barreto também migraram para o PSD em atos que reuniram lideranças de diferentes municípios, incluindo prefeitos como Lúcio Flávio, de Manicoré, o Professor Vanilso, de Japurá, Fernandão, de Presidente Figueiredo, e Zé Roberto, de Canutama, além de ex-prefeitos de cidades como Ipixuna, Eirunepé e Barcelos, sinalizando que o raio de influência do movimento já alcança praticamente todas as macrorregiões do interior — Alto e Médio Solimões, Rio Negro, Madeira, Purus e Baixo Amazonas.
O reforço de peso político: a chegada de Bosco Saraiva
Entre as adesões dos últimos meses, uma se destaca por características diferentes das demais: a filiação de Bosco Saraiva, ex-deputado estadual e, até março, superintendente da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus). Diferente dos prefeitos que migraram de outras siglas, Saraiva chega ao PSD vindo de um cargo federal estratégico — à frente da autarquia desde 2023, conduziu a Suframa em um período de recuperação do Polo Industrial de Manaus, com o faturamento do modelo voltando a superar a marca de R$ 200 bilhões anuais.
Saraiva deixou o comando da Suframa no fim de março, dentro do prazo legal de desincompatibilização, justamente para se dedicar à articulação ao lado de Omar Aziz. A filiação foi formalizada em ato de forte apelo popular, realizado na quadra da escola de samba Reino Unido da Liberdade, no Morro da Liberdade, zona Sul de Manaus — reduto histórico de Saraiva, um dos fundadores da agremiação. No discurso, ele declarou apoio direto à pré-candidatura de Omar ao governo e selou o reposicionamento que já vinha sinalizando desde janeiro, quando afirmou que sua saída do cargo público seria para “ajudar o senador Omar”. Saraiva pretende disputar uma vaga na Assembleia Legislativa do Amazonas, somando à base de Aziz não apenas capital político na capital, mas também a experiência de articulação em Brasília acumulada à frente de uma autarquia federal — um ativo que dificilmente teria equivalente entre as demais filiações recentes do partido.
Para Omar Aziz, esse crescimento tem uma leitura de proximidade administrativa: o senador tem reiterado que a adesão reflete a confiança dos municípios em um projeto voltado ao desenvolvimento regional e à melhoria da qualidade de vida da população, defendendo que “o Amazonas precisa voltar a crescer olhando para quem vive nos municípios”. Já gestores que migraram justificam a troca em termos pragmáticos: o prefeito de Beruri, por exemplo, destacou o histórico de presença de Aziz nos municípios das calhas do interior, enquanto o prefeito de Novo Airão apontou a falta de planejamento e de parceria real do estado com as cidades como motivo da mudança.
O terremoto que reconfigurou o tabuleiro: a saída de Wilson Lima
Esse processo de esvaziamento do União Brasil no interior ganhou um capítulo decisivo em abril, quando o cenário estadual sofreu sua maior reviravolta em anos. Em decisão tomada nos minutos finais do prazo de desincompatibilização eleitoral, o então governador Wilson Lima (União Brasil) renunciou ao cargo junto com o vice-governador Tadeu de Souza, decisão formalizada por carta de próprio punho protocolada por volta das 23h, com Wilson sinalizando a intenção de disputar uma vaga no Senado.
Com a dupla renúncia, o presidente da Assembleia Legislativa, Roberto Cidade, assumiu automaticamente o comando do Executivo estadual, colocando-se no centro do cenário político e como possível candidato à reeleição ao cargo. Cidade foi efetivado no posto em eleição indireta na Assembleia em maio, e hoje governa o Amazonas como titular — não mais como mero substituto eventual, o que muda o peso político da disputa: ele chega à campanha de outubro como governador em exercício pleno, tentando construir, em tempo recorde, uma candidatura própria à reeleição.
Esse movimento ajuda a explicar a velocidade da fuga de prefeitos do União Brasil: com o partido sem governador na cadeira principal por boa parte do primeiro semestre e disputando internamente a definição de candidaturas, prefeitos do interior leram o momento como uma janela de oportunidade para migrar para o lado que parecia mais consolidado eletoralmente. O próprio Wilson Lima, à frente da recém-formada federação União Progressista (fusão de União Brasil e PP), reconheceu que o partido ainda não havia definido seu candidato ao Governo do Amazonas, mas afirmou confiança no correligionário Roberto Cidade e a expectativa de eleger a maior bancada na Assembleia, três deputados federais e ao menos um cargo majoritário — um discurso que, na prática, soa mais defensivo do que ofensivo diante da escala das filiações para o lado de Aziz.
Como isso tende a influenciar o pleito de outubro
O impacto dessa reorganização aparece com nitidez nas pesquisas mais recentes. Levantamento do Instituto Census, divulgado em maio, mostrou Omar Aziz na liderança da disputa ao governo com 35% das intenções de voto no cenário estimulado, seguido por Maria do Carmo (PL) com 22%, David Almeida (Avante) com 17%, e Roberto Cidade com 14%. Em votos válidos, a vantagem de Aziz se amplia ainda mais. O mesmo instituto identificou um dado estratégico para a chapa: entre os eleitores de Omar Aziz, 54% também citam Eduardo Braga para o Senado, evidenciando que a aliança no interior está produzindo, de fato, o efeito de “voto casado” que a dupla buscava construir.
Para o Senado, o quadro também favorece o grupo: pesquisas indicam Eduardo Braga com ampla vantagem no cenário estimulado, contabilizando 48% das intenções de voto, à frente de adversários como o deputado federal Capitão Alberto Neto (PL) e do próprio Wilson Lima, que migra agora da cadeira de governador para a disputa da Casa Alta — um indício de que o ex-governador busca no Senado um caminho menos arriscado do que enfrentar Aziz e Braga consolidados no comando do interior.
Já Roberto Cidade aparece, em diferentes levantamentos, na última posição entre os pré-candidatos ao governo, ainda que com o menor índice de rejeição entre os nomes testados — um sinal de que carrega menos desgaste pessoal, mas também menos força de mobilização territorial, justamente a frente em que o União Brasil mais perdeu terreno nos últimos meses.
Quem é quem: o quadro pró-Omar no interior
Para situar o tamanho real do rearranjo, vale consolidar os nomes que migraram nos últimos meses, com o cargo que ocupam e o partido de origem:
Prefeitos filiados ao PSD (vindos majoritariamente do União Brasil):
- Emerson Melo — prefeito de Beruri (ex-União Brasil)
- Otávio Farias — prefeito de Novo Airão (ex-União Brasil)
- Nicson Marreira — prefeito de Tefé
- Matulinho Braz — prefeito de Caapiranga
- Socorro Nogueira — prefeita de Rio Preto da Eva
- Antônio Ferreira dos Santos (“Tonho”) — prefeito de Codajás
- Marina Pandolfo — prefeita de Nhamundá
- Gibe Martins — prefeito de São Paulo de Olivença
- Raiz — prefeito de Novo Aripuanã
Ex-prefeitos e lideranças municipais agregadas ao projeto:
- Anderson Souza — ex-prefeito de Rio Preto da Eva e presidente da Associação Amazonense de Municípios (AAM)
- Jocione Souza — ex-prefeito de Novo Aripuanã
- Raylan Barroso — ex-prefeito de Eirunepé
- Armando Filho — ex-prefeito de Ipixuna
- Édson Mendes — ex-prefeito de Barcelos
Lideranças presentes em atos de filiação, com prefeitos em exercício pelo PSD ou alinhados ao grupo:
- Lúcio Flávio — prefeito de Manicoré
- Professor Vanilso — prefeito de Japurá
- Fernandão — prefeito de Presidente Figueiredo
- Zé Roberto — prefeito de Canutama
Reforços de projeção estadual/federal:
- Wilker Barreto — deputado estadual, migrou para o PSD
- Bosco Saraiva — ex-deputado estadual e ex-superintendente da Suframa, filiado ao PSD, pré-candidato a deputado estadual
Partidos da coligação “Amazonas Forte de Novo” e sua força municipal:
- PSD (Omar Aziz) — nove prefeitos filiados somente nas últimas semanas, além dos já eleitos pela sigla em 2024
- MDB (Eduardo Braga) — 15 prefeitos
- Republicanos — nove prefeitos
- PT — dois prefeitos
Esse mapeamento deixa claro que o avanço de Omar Aziz no interior não é um fenômeno concentrado numa única região: ele atravessa o Médio e Alto Solimões (Tefé, São Paulo de Olivença), o eixo do Rio Madeira (Beruri, Novo Airão, Novo Aripuanã, Manicoré), o entorno da capital (Rio Preto da Eva, Presidente Figueiredo, Codajás) e até municípios do Baixo Amazonas e Purus (Nhamundá, Canutama), configurando uma base territorial dispersa e de difícil reversão para o União Brasil em poucos meses de campanha.
Na prática, a leitura mais sólida é a seguinte: a sequência de filiações no interior — somada a reforços como o de Bosco Saraiva, que traz musculatura política em Manaus e trânsito em Brasília — não é apenas um detalhe de bastidor, mas um dos pilares que explica a vantagem consolidada de Omar Aziz e Eduardo Braga nas pesquisas. Ao capturar prefeitos com capilaridade nas calhas do Solimões, do Madeira, do Purus e do Rio Negro, e ao incorporar nomes com peso institucional fora do meio rural, a dupla reduz o espaço de manobra do União Brasil exatamente na hora em que o partido mais precisava de coesão para sustentar a candidatura de Roberto Cidade — recém-chegado ao comando do estado e ainda em processo de construção de identidade própria diante do eleitorado. Se esse fluxo de filiações se mantiver até o prazo final de registro de candidaturas, a aliança “Amazonas Forte de Novo” pode chegar a outubro com a maior estrutura municipal já vista numa eleição estadual no Amazonas, o que tende a se traduzir em capilaridade decisiva nas urnas do interior — historicamente o colégio eleitoral onde as eleições amazonenses costumam ser decididas.
Matéria produzida com base em apuração de fontes públicas e pesquisas eleitorais registradas no TSE, atualizada em junho de 2026. Cenários eleitorais podem mudar até o pleito de outubro.
