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O Brasil que cresce e ainda assim aperta

Editoria de Economia  |  10 de maio de 2026  ·  Análise com base em dados do IBGE, FGV e Ministério da Fazenda

83,1% Alta na alimentação em casa desde 2020 · vs. IPCA ~47%51,1% Encarecimento do aluguel em média no período55,1% Alta dos medicamentos acima da inflação geral22,6% Do orçamento pobre só para comida era 18,4% em 2018 · FGV

O paradoxo chegou ao supermercado. O Brasil de 2025 ostentava as menores taxas de desemprego da série histórica do IBGE, salário mínimo em alta real e programas sociais que tiraram milhões da pobreza. Ainda assim, a sensação prevalente nas casas brasileiras era de aperto. Não de crise, mas de sufoco — aquela compressão silenciosa em que a renda entra pela porta e sai pelo corredor antes de qualquer escolha ser feita.

A explicação não está no bolso, mas no carrinho. Desde o início de 2020, as despesas que as famílias não podem postergar — comida dentro de casa, o teto em que dormem, os remédios que tomam, a escola dos filhos e os planos de saúde — subiram muito acima da inflação oficial. A reportagem de O Globo que escancarou esse dado, com exclusividade sobre levantamento do economista André Braz, coordenador de Índices de Preços da FGV, revelou o que muitos economistas já suspeitavam: o IPCA está certo como média, mas mente como realidade cotidiana.

A ilusão da média: quando o índice não conta a história

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo mede uma cesta que inclui eletrônicos, viagens, roupas e serviços de streaming. Quando o celular fica 15% mais barato e a carne sobe 20%, o IPCA equilibra — mas a família que precisa da carne e paga aluguel não consome média. Ela paga o preço real de cada item insubstituível.

ITEM DE DESPESAALTA DESDE 2020 IPCA NO PERÍODO
Alimentação no domicílio83,1%vs.~47% IPCA
Medicamentos55,1%vs.~47% IPCA
Aluguel residencial51,1%vs.~47% IPCA
Saúde e planos de saúdeacimavs.média
Educação privadaacimavs.média

Para as famílias de renda mais baixa — entre um e um salário mínimo e meio —, o estudo da FGV mostra que os alimentos já consomem 22,61% do orçamento total. Em 2018, esse percentual era de 18,44%. Isso aconteceu mesmo com o reajuste real do salário mínimo. A conclusão é dura: a política salarial ganhou, mas a política de preços perdeu.

“O problema é que os salários são corrigidos pela inflação média. Mas as famílias mais pobres não vivem na média — elas vivem no essencial, e o essencial subiu muito mais.”

— André Braz — Coordenador de Índices de Preços, FGV/IBRE

Por que a comida brasileira custa cada vez mais para o brasileiro

A explicação mais honesta e menos confortável está no modelo agrícola que o Brasil adotou nas últimas três décadas. O país se tornou o maior exportador mundial de soja, o maior exportador de carne bovina e um dos maiores de café. Isso é uma conquista legítima. O problema é o que aconteceu com o lado de dentro da equação.

A área plantada de arroz no Brasil caiu de 2,8 milhões de hectares em 2010 para 1,6 milhão em 2024. A produção de feijão por habitante recuou 20% no mesmo período. Enquanto isso, a área de soja passou de 10,6 milhões para 44,6 milhões de hectares desde 1993. A lógica é simples e brutal: a soja paga mais, então o produtor planta soja. O feijão fica escasso. O preço sobe. A família paga.

CONTEXTO O que a reportagem de O Globo revelou — e o que ela contextualiza A reportagem publicada por O Globo, baseada em levantamento exclusivo do economista André Braz da FGV, documentou com precisão a erosão do poder de compra das famílias em despesas essenciais. O dado central — de que a alimentação no domicílio subiu 83,1% desde 2020, quase o dobro do IPCA do período — joga luz sobre uma contradição que os números macroeconômicos não capturavam: o país crescia no agregado, mas comprimia no específico. O aluguel 51,1% mais caro e os remédios 55,1% acima da inflação completam o quadro de um orçamento sitiado exatamente nas linhas de menor resistência. Esta análise busca adicionar a anatomia das causas: por que isso aconteceu, quem se beneficiou e o que precisaria mudar.

O câmbio, as exportações e o bife que foi parar na China

Em 2024, as exportações de carne bovina brasileira atingiram recorde: 2,89 milhões de toneladas, alta de 26% em relação ao ano anterior. A receita foi de US$ 12,8 bilhões. Para o PIB, uma notícia excelente. Para o consumidor que tentava colocar um bife na mesa, uma tragédia silenciosa. A carne subiu 20,84% no IPCA daquele ano.

A subsecretária de Política Macroeconômica da Fazenda, Raquel Nadal, foi direta ao ponto: se não fosse a alta das carnes puxada pelas exportações, a inflação de 2024 teria encerrado dentro da meta. O real desvalorizado turbinava o negócio para o exportador — receber em dólar com câmbio alto é lucro extra — mas encarecia os insumos agrícolas importados, como fertilizantes e defensivos. Uma armadilha bilateral que o mercado interno pagou dos dois lados.

O que a Fazenda calculou sobre as carnes em 2024 Excluindo apenas as carnes bovinas do cálculo do IPCA de 2024, a inflação de alimentos cairia de 8,2% para 6,2%. A inflação geral, de 4,83%, teria fechado dentro da meta de 4,5% estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional. Isso significa que um único subgrupo de alimentos — puxado em grande medida pelo apetite externo — foi responsável por estourar a meta de inflação do país inteiro.

A Faria Lima e o aluguel que não para de subir

A Faria Lima não vende comida. Mas sua influência sobre o orçamento familiar chega pelo aluguel, e de forma estrutural. A lógica é a seguinte: quando a taxa de juros está alta, o crédito imobiliário fica caro. Quem não consegue financiar um imóvel vai para o mercado de locação. A demanda por aluguel sobe. O preço sobe junto. Em 2024, o aluguel residencial subiu 13,5% — quase o triplo da inflação oficial naquele ano.

O mercado financeiro defende que os juros altos existem por razão legítima: o risco fiscal do Brasil, a dívida pública crescente e a percepção de descontrole das contas públicas exigem prêmio. Sem a Selic elevada, o dólar dispararia, e a inflação seria pior. É um argumento com mérito técnico. Mas ele transfere o ônus do ajuste para quem aluga, para quem compra comida e para quem toma remédio — não para quem aplica em títulos públicos indexados à Selic.

“O orçamento familiar está sitiado exatamente no perímetro que não tem substituto: morar, comer e se tratar. São os gastos que a família não pode adiar, negociar ou cancelar.”

— Análise Econômica — Editoria de Economia

A visão dos empresários: quem defende o quê

O agronegócio é o setor que mais claramente se posiciona nesse debate. Seu argumento é que o Brasil precisa exportar para equilibrar a balança comercial, gerar dólares que sustentam o câmbio e financiar importações essenciais — inclusive de combustível. Sem o superávit agrícola, dizem os ruralistas, o real seria ainda mais fraco e a inflação, muito pior. A indústria de alimentos, por sua vez, aponta o custo Brasil: juros que encarecem o capital de giro, tributação complexa e infraestrutura logística precária que empurram o preço do produto final para cima antes mesmo de chegar ao supermercado.

O que falta nesse debate empresarial é a questão que nenhum setor quer responder: como tornar o modelo exportador compatível com a segurança alimentar interna? Argentina cobra 26% de taxa de exportação sobre a soja. O Brasil isenta ICMS das exportações de produtos primários desde 1996 para ganhar competitividade internacional — uma política que, na prática, subsidia o produtor que exporta e não protege quem fica.

O que precisaria mudar

Economistas que estudam o tema convergem em alguns pontos. Estoques reguladores de alimentos estratégicos — carne, feijão, arroz — dariam ao governo capacidade de intervir quando o preço dispara por pressão das exportações. Políticas agrícolas diferenciadas para culturas de abastecimento interno poderiam frear a migração das terras para soja e milho. No mercado imobiliário, programas habitacionais de larga escala reduziriam a demanda por aluguel e tirariam pressão dos preços de locação.

São medidas com custo fiscal e político. Nenhuma delas é simples ou rápida. Mas o diagnóstico já está feito — o levantamento da FGV publicado por O Globo é apenas o dado mais recente de uma série que aponta na mesma direção há anos. O orçamento brasileiro está sitiado nos itens que não têm substituto. E enquanto a política pública não encarar esse fato de frente, o paradoxo vai continuar: o Brasil cresce, o emprego sobe, a renda aumenta — e o fim do mês não fecha.

FONTES E METODOLOGIA

Esta análise foi produzida com base em dados do IBGE; levantamento do economista André Braz (FGV/IBRE), publicado com exclusividade por O Globo; dados do Ministério da Fazenda; relatórios da Agência Brasil sobre inflação estrutural de alimentos; dados da ABIEC sobre exportações de carnes; e pesquisa da FGV sobre variação de aluguéis residenciais (IVAR). Os percentuais de variação de despesas essenciais desde 2020 constam do levantamento original conforme referenciado na reportagem de O Globo.

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