ELEIÇÕES 2026 · AMAZONAS
O susto do Rio pode se repetir no Amazonas?
Pesquisas dão vantagem a Omar Aziz sobre Maria do Carmo no segundo turno. O agregado, o histórico dos institutos no estado e a aritmética da transferência de votos mostram o tamanho do erro que seria preciso para uma virada.

Por Gilberto Martins · Manaus, 20 de outubro de 2026
No Rio de Janeiro, todos os grandes institutos chegaram à véspera do primeiro turno com Eduardo Paes (PSD) à frente de Douglas Ruas (PL), com folga de oito a nove pontos. As urnas mostraram o contrário. O episódio, o quarto erro seguido das pesquisas para o governo fluminense, reacendeu uma pergunta que interessa diretamente ao Amazonas: os levantamentos que hoje colocam o senador Omar Aziz (PSD) na frente da Professora Maria do Carmo (PL) podem estar errando para o mesmo lado?
A resposta curta é que o risco existe, mas o caso amazonense é diferente do fluminense em pontos importantes. Para Maria do Carmo vencer no domingo, 25, seria necessário um erro de pesquisa do mesmo tamanho do que ocorreu no Rio. A principal referência no estado é a Quaest, que acertou o primeiro turno no Amazonas com erro inferior a um ponto. Na rodada mais recente do instituto, feita de 9 a 12 de outubro, Omar tem 14 pontos de vantagem: 51% a 37%. Outros levantamentos, de institutos com menos histórico no Amazonas, mostram distâncias que vão de 6 a 22 pontos.
O que deu errado no Rio
Na véspera, o Datafolha dava 46% a 38% para Paes; a Quaest, 49% a 40%; a AtlasIntel, 48,6% a 39,8%. Nenhuma pesquisa dos dez dias anteriores à votação mostrou Ruas à frente. Mesmo contando os votos de Anthony Garotinho, depois anulados pelo TSE, Ruas terminou com 49,3% contra 42,8% de Paes. A diferença entre o previsto e o apurado passou de 15 pontos na margem.
Três explicações aparecem nas análises publicadas desde então:
- Decisão tardia. Para Maurício Moura, do Instituto Idea, o eleitor fluminense vem decidindo o voto para governador muito perto da eleição, e este é o terceiro ciclo com arrancadas grandes em pouco tempo.
- Nacionalização. O voto para governador colou no presidencial: Flávio Bolsonaro teve 53,01% no estado e Ruas, 50,88%. A onda final pró-Flávio chegou à urna mais rápido do que as pesquisas conseguiram medir.
- Padrão nacional. O erro não foi exclusivo do Rio. No Paraná, Sergio Moro (PL) tinha entre 40% e 44,7% nas pesquisas e se elegeu com 50,10%. No Rio Grande do Sul, Zucco (PL) teve 58,05%, contra 52% na Quaest. Em 16 das 26 unidades da Federação, o primeiro colocado da Quaest de véspera terminou a mais de três pontos do número publicado.
O traço comum é a subestimação de candidatos do PL na reta final, associada ao crescimento de Flávio Bolsonaro, que terminou o primeiro turno com 47,03% dos válidos, contra 45,16% de Lula, quando seis de sete institutos davam o petista à frente.
No Amazonas, o primeiro turno foi outra história
Antes de projetar o erro do Rio sobre o Amazonas, é preciso olhar o que aconteceu aqui no dia 4. A pesquisa Quaest de véspera, feita em 2 e 3 de outubro com 1.800 entrevistas, praticamente acertou o resultado dos dois candidatos que foram ao segundo turno, e sem viés contra a candidata do PL.
| Candidato | Quaest véspera (válidos) | Urna (TSE) | Diferença |
| Omar Aziz (PSD) | 40% | 40,63% | -0,6 |
| Professora Maria do Carmo (PL) | 25% | 24,49% | +0,5 |
| Roberto Cidade (União) | 24% | ≈21,8% | +2,2 |
| David Almeida (Avante) | 11% | ≈10,6% | +0,4 |
Fontes: Quaest/Rede Amazônica (AM-04805/2026); TSE, totalização final. Percentuais de Cidade e David pela apuração divulgada na noite de 4/10.
Nem todos os institutos foram tão precisos. A Projeta, também na véspera, deu a Omar 35,29% e a Roberto Cidade 27,63% dos válidos, subestimando o senador em cerca de cinco pontos e superestimando o governador em quase seis. A AtlasIntel, ao longo do ano, foi a casa mais favorável a Maria do Carmo: em pesquisa de agosto e setembro, chegou a dar vitória à candidata do PL no segundo turno, por 53,3% a 46,7% dos válidos.
Ou seja, no Amazonas, o erro de primeiro turno não seguiu o padrão nacional. Onde houve desvio relevante, ele foi contra Omar, e não contra Maria do Carmo.
O que dizem as pesquisas do segundo turno
Desde o primeiro turno, cinco institutos divulgaram levantamentos registrados para a disputa entre Omar e Maria do Carmo. Todos mostram o senador à frente, mas com distâncias que variam de 6 a 22 pontos nos votos válidos.
| Instituto | Campo | Amostra | Omar | Maria do Carmo | Margem |
| PoderData | 8 a 11/out | 1.200 | 56% | 44% | +12 |
| Quaest* | 9 a 12/out | 1.098 | 58% | 42% | +16 |
| Pontual | 9 a 15/out | 2.000 | 61% | 39% | +22 |
| Projeta | 13 a 16/out | 1.200 | 57,7% | 42,3% | +15 |
| RealTime Big Data | 15 a 19/out | 1.600 | 53% | 47% | +6 |
*A Quaest divulgou votos totais (51% a 37%, com 6% de indecisos e 6% de brancos/nulos); a conversão para válidos é desta reportagem.
Dois detalhes importam. A pesquisa da Pontual, a mais favorável a Omar, mostra Manaus bem mais equilibrada: 53% a 47%. A RealTime Big Data, com campo na última semana, foi a única a registrar diferença de um dígito e encontrou Maria do Carmo com rejeição menor que a do adversário. É, porém, um instituto com pouco histórico no Amazonas, e seu resultado ainda não foi confirmado pela Quaest. Já os números da Pontual e da Projeta foram divulgados com destaque pelo próprio PSD, e a Projeta errou o primeiro turno por cerca de cinco pontos.
O agregado: onde estamos
A referência desta reportagem é a Quaest, pelo histórico de acerto no estado. Combinando os cinco levantamentos, o quadro é parecido: Omar aparece com algo entre 56% e 58% dos votos válidos.
| Método | Omar | Maria do Carmo | Margem |
| Quaest, referência (9 a 12/out) | 58% | 42% | +16 |
| Média simples (5 pesquisas) | 57,1% | 42,9% | +14 |
| Média ponderada pela amostra | 57,3% | 42,7% | +15 |
| Mediana | 57,7% | 42,3% | +15 |
| Sem a Pontual (a mais distante da média) | 56,2% | 43,8% | +12 |
| Só a pesquisa mais recente (RealTime) | 53% | 47% | +6 |
Cálculo da reportagem a partir dos números divulgados pelos institutos.
A leitura é de favoritismo de Omar, com vantagem de 14 a 16 pontos pela Quaest e pela média. Só a RealTime aponta aproximação, para 6 pontos. Até que a Quaest divulgue nova rodada, esse sinal deve ser lido com cautela, mas não descartado.
Desdobramento: dá para subestimar alguém no segundo turno?
A pergunta central desta reportagem é se o erro que favoreceu candidatos do PL no primeiro turno pode reaparecer agora. A experiência recente e a estrutura da disputa amazonense oferecem argumentos nos dois sentidos.
Por que o segundo turno costuma ser mais fácil de medir
Em 2022, as pesquisas subestimaram Jair Bolsonaro em cerca de sete pontos no primeiro turno presidencial. Estudo publicado pelo Cesop, da Unicamp, observa que essas discrepâncias não se repetiram na mesma medida no segundo turno, mesmo sem mudança relevante de metodologia pelos institutos. A explicação mais aceita é que boa parte do erro de primeiro turno vem do voto útil de última hora, quando eleitores de candidatos menores migram para um dos líderes. Com só dois nomes na urna, esse movimento praticamente desaparece, e o número de indecisos é menor.
O próprio Amazonas tem um precedente. No segundo turno de 2022, os principais levantamentos davam a Wilson Lima, candidato apoiado por Bolsonaro, cerca de 60% dos válidos contra 40% de Eduardo Braga. Wilson venceu, mas por uma margem menor, com cerca de 57%. O erro, ali, foi a favor do candidato bolsonarista, e não contra ele.
Os quatro mecanismos que podem produzir surpresa agora
- 1. Onda nacional tardia. Se houver nova arrancada de Flávio Bolsonaro na última semana, ela pode puxar Maria do Carmo, como puxou Ruas no Rio. A diferença é que, no Amazonas, a Quaest registra Lula à frente, com 47% contra 43%. O “acoplamento” com a eleição presidencial, que no Rio ajudou o PL, aqui tende a ajudar Omar, aliado de Lula. Mas se as pesquisas estaduais estiverem subestimando Flávio, como ocorreu no primeiro turno em vários estados, o efeito pode chegar à disputa local.
- 2. O eleitor de Roberto Cidade. O governador teve cerca de 22% dos válidos e decidiu ficar neutro. Sua federação, porém, apoia Flávio para presidente, enquanto o vice, Serafim Corrêa (PSB), e o ex-prefeito David Almeida declararam apoio a Omar. É o maior bloco de voto em disputa, e o que tem mais chance de decidir tarde.
- 3. Manaus versus interior. Maria do Carmo venceu na capital no primeiro turno, por 32,89% a 31,44%, e Omar dominou o interior, onde venceu em 53 dos 62 municípios. Pesquisar o interior amazonense é caro e difícil, e institutos que entrevistam em poucas cidades fora de Manaus podem errar o peso de cada região. O erro pode ir para qualquer lado: em 2026, quem errou o interior no primeiro turno subestimou Omar, e não Maria do Carmo.
- 4. Comparecimento diferencial. No segundo turno, sem disputa para deputado e senador, a abstenção costuma subir, sobretudo onde votar exige deslocamento longo, como em municípios ribeirinhos. Se a abstenção crescer mais no interior do que em Manaus, a base de Omar encolhe proporcionalmente. É uma hipótese que as pesquisas, por medirem intenção e não comparecimento, captam mal.
O argumento do “voto envergonhado” não se sustenta aqui
Uma explicação frequente para a subestimação de candidatos de direita é o eleitor que esconde o voto do entrevistador. No Amazonas, esse efeito não apareceu no primeiro turno: a Quaest atribuiu a Maria do Carmo 25% dos válidos, e ela teve 24,49%. Se houvesse um voto oculto relevante na candidata do PL, ele teria aparecido ali.
A aritmética da virada
Os candidatos eliminados no primeiro turno somaram cerca de 35% dos válidos. Omar precisa de pouco mais de 9 pontos desse total, ou seja, de cerca de 27% desses eleitores. Maria do Carmo precisa de 25,5 pontos, cerca de 73% deles. A simulação abaixo mostra o que cada cenário exige, supondo o mesmo comparecimento do primeiro turno.
| Cenário de transferência | David → Omar | Cidade → Omar | Omar (válidos) | Maria do Carmo |
| A. Divisão equilibrada | 70% | 50% | 60,2% | 39,8% |
| B. Cidade pende para o PL | 60% | 30% | 54,3% | 45,7% |
| C. Virada | 50% | 15% | 49,7% | 50,3% |
Simulação da reportagem com base no resultado do 1º turno. Votos dos demais candidatos (≈2,5%) divididos 50/50, 30/70 e 20/80 nos cenários A, B e C.
Para virar, Maria do Carmo precisaria levar cerca de 85% do eleitorado de Roberto Cidade e metade do de David Almeida, que apoia Omar. Não é impossível, mas exigiria um movimento muito mais concentrado do que qualquer pesquisa registrou até agora.
Qual erro seria preciso
Tomando a Quaest como referência, a candidata do PL precisaria de um erro de cerca de oito pontos em cada lado, ou 16 pontos na margem. É um erro maior que o do Rio, e de um instituto que errou menos de um ponto no Amazonas no primeiro turno. Contra a média das pesquisas, o erro necessário seria de 14 a 15 pontos na margem. Só no cenário da RealTime a virada ficaria ao alcance de um desvio comum, de três pontos para cada lado.
Em resumo: Omar Aziz chega à última semana como favorito. A Quaest, o instituto que acertou o primeiro turno no estado, lhe dá 14 pontos de vantagem, quatro de cinco pesquisas mostram diferença de dois dígitos e a aritmética de transferência é favorável. A eleição, porém, não está decidida. A aproximação registrada pela RealTime, ainda não confirmada pela Quaest, a neutralidade de Roberto Cidade e a possibilidade de uma onda nacional tardia são os fatores que podem produzir, no Amazonas, uma surpresa como a do Rio.
O que observar até domingo
- A próxima rodada da Quaest, referência no estado: se mantiver a diferença de 14 pontos da rodada de 9 a 12 de outubro, o sinal de aproximação da RealTime perde força; se a diferença cair, a disputa fica aberta.
- O placar em Manaus: a capital concentra mais da metade dos votos válidos do estado, e uma vantagem larga de Maria do Carmo ali é condição para qualquer virada.
- Gestos de Roberto Cidade ou de seu grupo político na reta final.
- O movimento da disputa presidencial no estado, que pode puxar a eleição para governador.
Metodologia e fontes
O agregado considera as cinco pesquisas registradas no TSE com campo após o primeiro turno e números divulgados até 20 de outubro. Os votos válidos excluem brancos, nulos e indecisos. A Quaest foi convertida de votos totais para válidos pela reportagem. A média ponderada usa o tamanho da amostra. A simulação de transferência é ilustrativa e não considera variação de comparecimento. O artigo de O Globo sobre o erro no Rio não pôde ser consultado diretamente; a análise usa reportagens e artigos de Gazeta do Povo, Nexo, Band e Tempo Real RJ sobre o mesmo tema.
Fontes: TSE e TRE-AM (resultados); Quaest/Rede Amazônica (AM-04805/2026 e AM-09760/2026); PoderData/Poder360; Instituto Pontual (AM-02304/2026); Instituto Projeta (AM-09042/2026); RealTime Big Data; AtlasIntel (AM-04939/2026); Gazeta do Povo; Nexo Jornal; Band; Metrópoles; Amazonas Atual; A Crítica; Portal Zona Franca; Revista Fórum; Cesop/Unicamp.
