Da cidade mais indígena do Brasil para a Aleam: Clóvis Curubão será o primeiro deputado indígena do Amazonas

Ex-prefeito de São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, recebeu 34.869 votos — metade deles em sua terra natal — e chega ao Parlamento estadual levando as demandas de um município onde nove em cada dez moradores são indígenas e a vida depende dos rios
Uma eleição inédita
Pela primeira vez em sua história, a Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) terá um deputado estadual indígena. Clóvis Curubão (PT), ex-prefeito de São Gabriel da Cachoeira, foi eleito no domingo (4) com 34.869 votos, o equivalente a 1,64% dos votos válidos. Ele ficou em 18º lugar entre os 24 eleitos e garantiu a segunda cadeira da Federação Brasil da Esperança (PT/PCdoB/PV), ao lado de Zé Ricardo, o mais votado do estado.
A eleição de Curubão leva ao Parlamento estadual a voz do Alto Rio Negro, região no extremo noroeste do Amazonas, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela, e um dos maiores territórios indígenas do país. Ele toma posse em 1º de fevereiro de 2027, para um mandato de quatro anos.
São Gabriel garantiu metade da votação
A força eleitoral do novo deputado veio de casa. Dos 34.869 votos recebidos, 17.563 foram registrados em São Gabriel da Cachoeira — cerca de 50,4% do total. Somados os três municípios da Calha do Alto e Médio Rio Negro — São Gabriel, Santa Isabel do Rio Negro (2.111 votos) e Barcelos (1.352) —, a região deu 21.026 votos ao petista, ou 60,3% de toda a sua votação.
Em Manaus, Curubão recebeu 4.545 votos (13%), a segunda maior votação dele no estado. O novo deputado também teve votações expressivas em Autazes (1.994), Borba (711), Maués (573), Santo Antônio do Içá (525) e Parintins (503). Segundo os dados do TSE, ele recebeu votos em pelo menos 59 dos 62 municípios do Amazonas.
QUADRO
Onde Clóvis Curubão foi mais votado
Os 15 municípios com mais votos para o deputado eleito. Em destaque, as cidades da Calha do Rio Negro.
| # | Município | Votos | % do total |
| 1 | São Gabriel da Cachoeira | 17.563 | 50,4% |
| 2 | Manaus | 4.545 | 13,0% |
| 3 | Santa Isabel do Rio Negro | 2.111 | 6,1% |
| 4 | Autazes | 1.994 | 5,7% |
| 5 | Barcelos | 1.352 | 3,9% |
| 6 | Borba | 711 | 2,0% |
| 7 | Maués | 573 | 1,6% |
| 8 | Santo Antônio do Içá | 525 | 1,5% |
| 9 | Parintins | 503 | 1,4% |
| 10 | São Paulo de Olivença | 446 | 1,3% |
| 11 | Barreirinha | 407 | 1,2% |
| 12 | Tefé | 388 | 1,1% |
| 13 | Maraã | 345 | 1,0% |
| 14 | Careiro da Várzea | 244 | 0,7% |
| 15 | Tabatinga | 234 | 0,7% |
| TOTAL NO AMAZONAS | 34.869 | 100% |
Calha do Rio Negro (São Gabriel, Santa Isabel e Barcelos): 21.026 votos — 60,3% do total. Demais municípios: 2.928 votos.
Fonte: TSE — Resultados das Eleições 2026, 1º turno (4/10). Percentuais sobre o total de votos nominais do candidato no estado.
O desempenho no Alto Rio Negro foi decisivo num sistema proporcional em que as cadeiras são distribuídas pela votação de cada partido ou federação. Dentro do PT, Curubão ocupou o espaço do deputado Sinésio Campos, que não conseguiu se reeleger.
Quem é Clóvis Curubão
Clóvis Moreira Saldanha, conhecido como Clóvis Curubão, tem 53 anos e é indígena do povo Tariana, que vive principalmente ao longo do rio Uaupés, no Alto Rio Negro, e em áreas da Colômbia. Uma das principais referências do povo Tariana no Brasil é o distrito de Iauaretê (Jauaretê), às margens do Uaupés, onde a língua tariana é ensinada na escola desde 2003.
Curubão construiu sua trajetória política em São Gabriel da Cachoeira. Foi eleito prefeito em 2016 e reeleito em 2020, comandando a cidade por dois mandatos consecutivos, entre 2017 e 2024. Impedido de disputar um terceiro mandato seguido, lançou-se candidato à Aleam e chega pela primeira vez ao Legislativo.
A cidade mais indígena do Brasil
São Gabriel da Cachoeira fica a cerca de 850 quilômetros de Manaus, na região conhecida como “Cabeça do Cachorro”, por causa do formato do mapa. Com 108,7 mil km², é o segundo maior município do Amazonas e o terceiro do país em extensão territorial. A maior parte do território está dentro da Terra Indígena Alto Rio Negro.
Segundo o Censo 2022 do IBGE, 93,17% dos moradores se declaram indígenas — são cerca de 48,3 mil pessoas, a segunda maior população indígena entre os municípios brasileiros, atrás apenas de Manaus. Vivem ali 23 povos, entre eles Tukano, Baniwa, Baré, Tariana e Yanomami, que falam cerca de 20 línguas diferentes.
O município foi o primeiro do Brasil a tornar oficiais línguas indígenas: além do português, o nheengatu, o tukano e o baniwa são idiomas cooficiais. É também a porta de entrada para o Pico da Neblina, o ponto mais alto do país.
A vida entre rios, corredeiras e cachoeiras
No Alto Rio Negro, o rio é a estrada. Não há ligação rodoviária com Manaus: chega-se a São Gabriel de barco, em viagens de vários dias, ou de avião. Cerca de 25 mil indígenas vivem em aproximadamente 750 comunidades espalhadas pelos rios Negro, Uaupés, Içana, Tiquié e afluentes, onde as corredeiras e cachoeiras dificultam a navegação e encarecem o transporte de pessoas, combustível, alimentos e remédios.
A dependência dos rios deixa a população vulnerável às mudanças climáticas. Na seca histórica de 2023, indígenas tiveram de arrastar barcos sobre bancos de areia para chegar à orla da cidade, roças foram perdidas, os preços subiram e o município correu risco de apagão. Em Iauaretê, lideranças relataram que o poço que abastecia uma das comunidades secou.
Estudar longe de casa
A educação é um dos grandes gargalos da região. Muitas comunidades oferecem apenas os anos iniciais do ensino. Para continuar estudando, os jovens precisam se mudar para a sede do município ou para distritos maiores, como Iauaretê, o que exige gastos das famílias com combustível e moradia e afasta os estudantes de suas aldeias.
Organizações indígenas defendem uma educação escolar indígena diferenciada, com professores indígenas, ensino nas línguas maternas e conteúdos ligados à realidade das comunidades. Estudantes relatam ainda discriminação por causa da língua e da cultura em escolas e universidades, um fator apontado como causa de evasão.
Os desafios que o novo deputado terá pela frente
Como deputado estadual, Curubão poderá apresentar projetos de lei, destinar emendas ao orçamento e fiscalizar o governo do Amazonas — além de cobrar de secretarias como Saúde e Educação ações para o Alto Rio Negro. Entre os problemas mais urgentes da região estão:
Suicídio entre jovens indígenas. São Gabriel da Cachoeira convive há décadas com taxas de suicídio muito acima da média nacional. A vigilância em saúde registrou 71 mortes entre 2020 e 2023, e a faixa etária mais atingida é a de 15 a 19 anos. Entre 2019 e 2022, o Amazonas foi o estado com mais suicídios de indígenas no país, segundo o Cimi. Em 2024, o município lançou um plano de prevenção com apoio do governo estadual.
Saneamento básico. Apenas 2,42% dos domicílios têm esgotamento sanitário adequado, segundo o IBGE (Censo 2022). Boa parte das comunidades depende de poços e da água dos rios.
Saúde nas comunidades. O atendimento depende do Distrito Sanitário Especial Indígena Alto Rio Negro, que enfrenta grandes distâncias, atrasos no repasse de recursos e dificuldade de logística. Áreas Yanomami do município sofrem com surtos de malária ligados ao garimpo ilegal.
Clima, energia e custo de vida. As secas extremas afetam a navegação, o abastecimento e a geração de energia, que depende de combustível transportado pelo rio, e encarecem o custo de vida.
Violência e álcool. Organizações de jovens indígenas do Rio Negro denunciam a venda descontrolada de bebidas alcoólicas, a violência urbana e a violência sexual contra crianças, adolescentes e mulheres na periferia da cidade.
Ao assumir a cadeira, Curubão terá o desafio de transformar o simbolismo de sua eleição em resultados concretos para os povos do Rio Negro — e de representar, na Aleam, uma população indígena que só no Amazonas soma mais de 490 mil pessoas
ANEXO — Votação de Clóvis Curubão em todos os municípios
Para conferência da edição. Dados enviados pela reportagem a partir do TSE. Juruá não consta da lista.
| # | Município | Votos | % do total |
| 1 | São Gabriel da Cachoeira | 17.563 | 50,4% |
| 2 | Manaus | 4.545 | 13,0% |
| 3 | Santa Isabel do Rio Negro | 2.111 | 6,1% |
| 4 | Autazes | 1.994 | 5,7% |
| 5 | Barcelos | 1.352 | 3,9% |
| 6 | Borba | 711 | 2,0% |
| 7 | Maués | 573 | 1,6% |
| 8 | Santo Antônio do Içá | 525 | 1,5% |
| 9 | Parintins | 503 | 1,4% |
| 10 | São Paulo de Olivença | 446 | 1,3% |
| 11 | Barreirinha | 407 | 1,2% |
| 12 | Tefé | 388 | 1,1% |
| 13 | Maraã | 345 | 1,0% |
| 14 | Careiro da Várzea | 244 | 0,7% |
| 15 | Tabatinga | 234 | 0,7% |
| 16 | Iranduba | 230 | 0,7% |
| 17 | Novo Airão | 227 | 0,7% |
| 18 | Itacoatiara | 192 | 0,6% |
| 19 | Manicoré | 190 | 0,5% |
| 20 | Codajás | 173 | 0,5% |
| 21 | Coari | 157 | 0,5% |
| 22 | Urucará | 147 | 0,4% |
| 23 | Atalaia do Norte | 135 | 0,4% |
| 24 | Fonte Boa | 124 | 0,4% |
| 25 | Tonantins | 118 | 0,3% |
| 26 | Benjamin Constant | 108 | 0,3% |
| 27 | Rio Preto da Eva | 107 | 0,3% |
| 28 | Manaquiri | 94 | 0,3% |
| 29 | Silves | 93 | 0,3% |
| 30 | Manacapuru | 76 | 0,2% |
| 31 | Boa Vista do Ramos | 66 | 0,2% |
| 32 | Urucurituba | 61 | 0,2% |
| 33 | São Sebastião do Uatumã | 60 | 0,2% |
| 34 | Amaturá | 57 | 0,2% |
| 35 | Careiro | 56 | 0,2% |
| 36 | Humaitá | 52 | 0,1% |
| 37 | Jutaí | 49 | 0,1% |
| 38 | Itapiranga | 48 | 0,1% |
| 39 | Nova Olinda do Norte | 48 | 0,1% |
| 40 | Eirunepé | 42 | 0,1% |
| 41 | Presidente Figueiredo | 33 | 0,1% |
| 42 | Alvarães | 31 | 0,1% |
| 43 | Tapauá | 25 | 0,1% |
| 44 | Novo Aripuanã | 22 | 0,1% |
| 45 | Beruri | 17 | 0,0% |
| 46 | Canutama | 14 | 0,0% |
| 47 | Nhamundá | 14 | 0,0% |
| 48 | Apuí | 12 | 0,0% |
| 49 | Lábrea | 11 | 0,0% |
| 50 | Uarini | 8 | 0,0% |
| 51 | Anori | 7 | 0,0% |
| 52 | Boca do Acre | 5 | 0,0% |
| 53 | Caapiranga | 3 | 0,0% |
| 54 | Pauini | 3 | 0,0% |
| 55 | Envira | 2 | 0,0% |
| 56 | Japurá | 2 | 0,0% |
| 57 | Anamã | 1 | 0,0% |
| 58 | Guajará | 1 | 0,0% |
| 59 | Itamarati | 1 | 0,0% |
| 60 | Carauari | 0 | 0,0% |
| 61 | Ipixuna | 0 | 0,0% |
| TOTAL NO AMAZONAS | 34.869 | 100% |
