Belém não reclamou. Votou.
Dois dias depois de associar a capital paraense a esgoto, urubus e “cheiro ruim” em rede nacional, Flávio Bolsonaro viu a metrópole da Amazônia ampliar a vantagem de Lula no segundo turno

Há cidades que respondem a ofensa com nota oficial. Belém respondeu com urna.
Na noite de sexta-feira, 23 de outubro, no último debate do segundo turno, na TV Globo, o senador e candidato do PL resolveu apresentar a capital paraense ao país. A descrição veio em resposta a uma pergunta de Lula (PT) sobre água e esgoto na Região Norte. Flávio contou que esteve na cidade e viu esgoto a céu aberto no centro da capital e urubus revirando lixo perto das casas. Arrematou falando de pessoas acostumadas a “viver num lugar, né, que tem cheiro ruim”, e em seguida prometeu ajudar Belém a fazer o maior programa de saneamento básico de sua história.
Foi o retrato que escolheu para a maior cidade da Amazônia brasileira, a capital que um ano antes havia recebido o mundo na COP30. Nada de Ver-o-Peso, de Círio, de açaí, de tecnobrega, de quatro séculos de história. Esgoto, urubu e mau cheiro.
A reação
A frase não precisou de tradução. O prefeito Igor Normando (MDB) disse que a declaração era de quem não conhece a cidade. O ex-governador e senador eleito Helder Barbalho (MDB) gravou vídeo devolvendo o adjetivo: para ele, o que fede é “o olhar simplista e preconceituoso” de parte da classe política sobre Belém e sua gente. Helder listou obras de saneamento, tratamento de esgoto e macrodrenagem feitas na capital.
A atriz Dira Paes publicou vídeo com a legenda “Belém merece respeito” e afirmou que os problemas da cidade não justificam expressões que desrespeitam seus moradores. Nas redes, o tom foi menos diplomático: um internauta ironizou o efeito eleitoral, prevendo que agora Belém seria “200% Lula”.
O recado das urnas
Não foi 200%. Mas o recado veio. No domingo, 25, com 100% das urnas apuradas, Lula teve 468.891 votos (55,01% dos válidos) em Belém, contra 383.457 (44,99%) de Flávio Bolsonaro. Diferença de 85.434 votos, ou 10,02 pontos percentuais.
O número ganha peso quando comparado com o primeiro turno. Em 4 de outubro, Lula tinha 48,00% dos válidos na capital, e Flávio, 43,74%. De um turno para o outro, Lula ganhou 72.321 votos; Flávio, 22.080. Uma vantagem de pouco mais de 4 pontos virou uma de 10.
O contraste histórico é ainda mais eloquente. Em 2022, no segundo turno, Lula venceu em Belém com 50,28% dos votos válidos, contra 49,72% de Jair Bolsonaro. Quatro anos atrás, a capital esteve dividida ao meio entre Lula e o pai do senador. Agora, o filho saiu da cidade dez pontos atrás.
A onda não ficou restrita à capital. Lula venceu em todos os municípios da Região Metropolitana de Belém e ampliou a votação no segundo turno. No estado, ficou à frente em 96 dos 144 municípios. Nacionalmente, foi eleito presidente pela quarta vez, com 51,75% dos votos válidos.
O desprezo e o diagnóstico
O problema da fala de Flávio não é falar de saneamento. É falar de saneamento como quem descreve um lugar estranho, visto pela janela do carro. Os números de Belém são, de fato, graves: segundo o Ranking do Saneamento 2026 do Instituto Trata Brasil, a capital tem um dos menores índices de coleta de esgoto entre os municípios avaliados, com apenas 25,27% da população atendida. É um debate legítimo e urgente, que governos de todas as cores deixaram se arrastar por décadas.
Mas há diferença entre denunciar o abandono e reduzir uma metrópole de mais de 1,3 milhão de habitantes a uma imagem de lixo. A promessa de “ajudar Belém” veio embrulhada num tom de quem chega de fora para salvar uma cidade que não respeita. E o belenense entendeu o tom antes de entender a promessa.
Há ainda o detalhe do calendário. A frase saiu a menos de 48 horas da votação, quando não havia mais tempo de desfazer o estrago, e num estado em que o candidato do PL já tinha ficado atrás de Lula no primeiro turno.
O que os números não dizem
Seria exagero atribuir toda a variação de Belém a uma única frase. Lula cresceu no segundo turno em praticamente todo o Pará, inclusive em redutos bolsonaristas, e Flávio também ganhou votos na capital entre um turno e outro. A campanha do PL sustenta que o senador apenas descreveu uma realidade que os próprios indicadores confirmam, e que se comprometeu com investimento. São argumentos que merecem registro.
Ainda assim, a cronologia é difícil de ignorar: o candidato falou de mau cheiro na sexta, a cidade foi às urnas no domingo, e a vantagem do adversário mais que dobrou. Belém não fez passeata nem abaixo-assinado. Não precisou.
Fontes
CNN Brasil – Em Belém, Lula é o mais votado no 2º turno (dados TSE), 25/10/2026
O Liberal – Flávio Bolsonaro fala de “esgoto a céu aberto” em Belém durante debate, 24/10/2026
Gazeta Carajás – Transcrição da fala no debate da TV Globo, 24/10/2026
DOL – Prefeito Igor Normando responde a Flávio, 24/10/2026
BNC Amazonas – Helder rebate Flávio, 24/10/2026
Blog do Gerson Nogueira – Reação de Dira Paes, 24/10/2026
Diário do Pará – Lula cresce em todas as cidades da Grande Belém; Belém deu vitória a Lula, 26/10/2026
Estado do Pará Online – Lula vence Flávio no Pará, 26/10/2026
O Liberal / Instituto Trata Brasil – Ranking do Saneamento 2026
