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A ciência descobre o que a Amazônia já sabia: o homem também nasceu para cuidar

Livro da antropóloga Sarah Blaffer Hrdy revela que o cérebro masculino guarda um potencial de cuidado adormecido há milênios — e a descoberta ecoa em terras onde criar filhos sempre foi tarefa de todos

— Em uma maloca às margens de um igarapé, um tio segura o filho do irmão no colo enquanto a mãe sai para pescar. Na várzea, avós, primas e vizinhas se revezam no cuidado das crianças pequenas como se fossem suas. Para quem cresceu na Amazônia, essa cena não surpreende ninguém. Mas para a ciência ocidental, ela é a chave que faltava para desmontar um dos mitos mais antigos sobre a natureza masculina: o de que os homens evoluíram apenas para competir por status e parceiras, deixando o cuidado com os filhos exclusivamente a cargo das mulheres.

É essa crença que a antropóloga e primatóloga americana Sarah Blaffer Hrdy, professora emérita da Universidade da Califórnia em Davis, decidiu colocar em xeque. Em Father Time: A Natural History of Men and Babies* (“Tempo de Pai: Uma História Natural dos Homens e dos Bebês”, em tradução livre), lançado em 2024 pela Princeton University Press, ela mergulha em décadas de pesquisa em primatologia, neurociência, genética e endocrinologia para provar algo que soa revolucionário, mas que talvez fosse óbvio para os povos originários da floresta: o corpo e o cérebro dos homens também foram moldados pela evolução para cuidar de bebês.

A pergunta que intrigou uma vida inteira de pesquisa

Hrdy não chegou a essa conclusão da noite para o dia. Autora de uma trilogia sobre maternidade e evolução — iniciada com Mother Nature (1999) e seguida por Mothers and Others (2009) — ela passou a vida estudando como as fêmeas de primatas garantiam a sobrevivência da prole. Foi observando, décadas depois, os próprios netos crescerem cercados por pais, tios e avôs afetivamente presentes que a cientista se viu diante de uma pergunta incômoda: se a biologia sempre “programou” os machos para competir e não para nutrir, como explicar tantos pais contemporâneos trocando fraldas, embalando bebês para dormir e chorando de emoção na maternidade?

A resposta que ela constrói ao longo de mais de 400 páginas é tão simples quanto poderosa: a capacidade de cuidado nunca esteve ausente nos homens — ela estava latente, esperando as condições certas para se manifestar.

Um interruptor biológico chamado convivência

O conceito central do livro é o que Hrdy chama de “substrato aloparental” — uma espécie de arquitetura neural herdada de ancestrais distantes, presente também em primatas como os saguis e os títis, espécies em que os machos dividem o cuidado dos filhotes com as fêmeas. Esse substrato não é exclusivo de quem carrega um filho na barriga ou amamenta: ele pode ser ativado em qualquer cérebro, masculino ou feminino, desde que exposto ao contato próximo e prolongado com um bebê.

E o corpo responde. Estudos citados pela autora mostram que pais que se envolvem ativamente no cuidado dos filhos apresentam queda nos níveis de testosterona e aumento de ocitocina e prolactina — os mesmos hormônios associados ao vínculo materno. Ressonâncias magnéticas indicam ainda alterações na atividade cerebral de pais presentes, em regiões ligadas à empatia e ao apego. Não é força de vontade, argumenta Hrdy: é fisiologia respondendo à prática.

O patriarcado como desvio de rota

Se a biologia sempre permitiu o cuidado paterno, por que ele foi historicamente tão raro? Aqui está um dos pontos mais provocadores da obra. Para Hrdy, a criação coletiva — o que os antropólogos chamam de “cooperative breeding” [reprodução cooperativa]— foi decisiva para a sobrevivência da nossa espécie durante o Pleistoceno, quando bebês humanos, extremamente dependentes por longos períodos, precisavam de várias pessoas ao redor para sobreviver: mães, pais, avós, tios, irmãos mais velhos.

Foi só com o avanço de estruturas sociais patriarcais, argumenta a autora, que essa rede de cuidado compartilhado foi se estreitando, empurrando os homens para papéis de provedores e guerreiros e as mulheres para o confinamento doméstico da maternidade solitária. Ou seja: o pai ausente não é a regra evolutiva — é uma invenção cultural relativamente recente, e reversível.

O elo com a floresta

Essa é, talvez, a parte da tese de Hrdy mais fácil de reconhecer em Manaus e no interior do Amazonas. Em comunidades ribeirinhas e indígenas, a criação compartilhada de crianças por múltiplos adultos — pais, tios, avós, madrinhas — nunca deixou de ser norma, e não exceção. O que a ciência ocidental está “redescobrindo” em laboratórios de neuroendocrinologia, muitas famílias amazônidas vivem, na prática, há gerações.

O debate ganha ainda outra camada quando se olha para a realidade da própria capital. Amazonas é hoje um dos estados que mais depende de mão de obra formal ligada ao Polo Industrial de Manaus, onde milhares de homens trabalham em regime de turnos rígidos, muitas vezes distantes de casa nos primeiros meses de vida dos filhos. A legislação brasileira garante apenas cinco dias de licença-paternidade — ou até vinte dias em empresas do Programa Empresa Cidadã —, um período curto demais, segundo especialistas, para que o tal “substrato aloparental” descrito por Hrdy tenha tempo de ser ativado pela convivência.

É justamente esse tipo de dado que pesquisadores e formuladores de políticas públicas vêm usando o trabalho de Hrdy para embasar: se o vínculo paterno depende de tempo e proximidade nas primeiras semanas de vida, ampliar a licença-paternidade não é apenas uma pauta de bem-estar familiar, mas uma política com respaldo biológico.

Por que isso importa fora da academia

*Father Time* não é apenas um livro sobre hormônios e cérebros. É, no fundo, uma obra sobre o que significa ser homem — e sobre como sociedades inteiras podem se beneficiar quando ampliam, em vez de restringir, o papel dos pais na primeira infância. Hrdy reúne dados de sociedades caçadoras-coletoras contemporâneas, como os Hadza da Tanzânia, a estudos com primatas cativos e ressonâncias magnéticas de pais recentes em grandes centros urbanos, para argumentar que estamos diante de uma verdadeira mudança evolutiva em curso — não uma moda passageira, mas um retorno a um padrão de cuidado que a espécie humana carrega há milênios.

Para os leitores de Manaus, a obra funciona quase como um espelho: aquilo que a ciência de ponta trata como descoberta recente, gerações de famílias amazônidas — indígenas, ribeirinhas, ou simplesmente vizinhos que dividem o cuidado das crianças da rua — já sabiam, sem precisar de ressonância magnética para provar.

Texto gerado com auxílio de Inteligência Artificial e revisado por [Gilberto Martins]”) extraída do livro Father Time: A Natural History of Men and Babies,que foi finalista do PEN/E.O. Wilson Literary Science Writing Award e venceu o PROSE Award de Antropologia Biológica da Association of American Publishers. A edição em inglês está disponível em livrarias internacionais e plataformas digitais; até o momento, não há edição traduzida para o português.

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