Manaus

A fila que virou palanque: o SISREG no Amazonas e o retrato de um problema nacional

— Poucas siglas do serviço público brasileiro concentram tanta angústia quanto o SISREG. Para quem depende do SUS em Manaus e no interior do Amazonas, ela é sinônimo de meses — às vezes anos — de espera por uma consulta especializada, um exame ou uma cirurgia. Para os pré-candidatos ao Governo do Estado em 2026, virou palavra de ordem de campanha. Para os órgãos de controle, é hoje objeto de investigação. E, para o Ministério da Saúde, é apenas um entre vários sistemas que tentam organizar um problema estrutural do SUS: a distância entre a demanda por saúde especializada e a capacidade real de atendê-la.

Esta reportagem reúne o que se sabe hoje sobre o funcionamento técnico do sistema, a situação específica de Manaus e do Amazonas, os diferentes atores e versões em disputa, e como o estado se posiciona dentro de um quadro nacional que também está longe de ser exemplar.

O que é o SISREG, afinal

O Sistema Nacional de Regulação nasceu em 1999, ainda em versão offline, de uma parceria entre o DATASUS e a prefeitura de Belo Horizonte. Em 2002, ganhou uma versão web (SISREG II) desenvolvida pelo Ministério da Saúde para organizar o fluxo de leitos e consultas em todo o país. A versão atual — SISREG III — é oferecida gratuitamente pelo Ministério da Saúde a estados e municípios, mas seu uso não é obrigatório: cada secretaria de saúde pode adotar, customizar ou até substituir o sistema por soluções próprias. São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, por exemplo, desenvolveram sistemas de regulação próprios a partir do código-fonte cedido pelo governo federal.

Na prática, o SISREG funciona como uma central de tráfego: uma unidade básica de saúde insere o pedido de um paciente (consulta especializada, exame, cirurgia, internação), um regulador avalia a prioridade clínica, e o sistema tenta casar essa demanda com a oferta de vagas disponível na rede — municipal, estadual ou conveniada. O sistema não cria vagas: ele apenas organiza e prioriza o acesso às vagas que já existem. Essa distinção é central para entender por que “zerar a fila” é, tecnicamente, mais complexo do que apagar registros de um banco de dados.

O Brasil também tem fila — e ela está crescendo

O problema de Manaus não é uma exceção brasileira, é uma versão amplificada de um problema nacional. Levantamento feito com base em dados do próprio SISREG, obtidos via Lei de Acesso à Informação, mostrou que a espera média por uma consulta com especialista no SUS chegou a 57 dias em 2024 — mais alta que os 50 dias registrados em plena pandemia, em 2020. No mesmo levantamento, cerca de 5,7 milhões de pessoas aguardavam atendimento em todo o país em janeiro daquele ano. As disparidades regionais são enormes: no Mato Grosso, por exemplo, a espera média por uma avaliação em genética médica chegava a 721 dias — cerca de dois anos.

O Conselho Nacional de Justiça, pelo Fórum Nacional de Saúde, já classifica como “excessiva” qualquer espera acima de 100 dias para consultas e exames, e 180 dias para cirurgias e tratamentos — parâmetro que boa parte do país, incluindo o Amazonas, descumpre com folga em diversas especialidades.

O governo federal tem tentado reagir: iniciativas recentes miram reduzir para 60 dias o tempo de espera por tratamento oncológico, ampliar investimento em policlínicas (pela primeira vez com aporte federal direto) e expandir a telessaúde como forma de compensar a escassez de especialistas em regiões distantes dos grandes centros — categoria em que o Amazonas, por sua geografia amazônica e concentração de média/alta complexidade na capital, se encaixa de forma quase didática.

Amazonas: de “redução histórica” a “fila da morte” em seis anos

O Amazonas já teve seu momento de vitrine nacional na gestão da fila. Em janeiro de 2019, o Complexo Regulador do estado registrava 255.543 pessoas na fila do SISREG. Um ano depois, em janeiro de 2020, esse número havia caído para 87.238 — uma redução de 65,8%, atribuída pela então gestão estadual ao programa Regula+Brasil, que fortaleceu as unidades básicas de saúde para qualificar os encaminhamentos e reduziu drasticamente o tempo de espera em especialidades como gastroenterologia (de 371 para até 14 dias) e endocrinologia (de 179 para até 5 dias).

Seis anos depois, o quadro que chega à campanha eleitoral de 2026 é bem diferente. Em fevereiro de 2025, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) lançou o “Saúde AM Digital”, uma ferramenta de comunicação via WhatsApp para agilizar o aviso de vagas — motivada, entre outras coisas, por uma taxa de ausencia de 60% dos pacientes agendados pelo SISREG no estado, que soma cerca de 600 mil procedimentos agendados por mês na rede amazonense. Antes da ferramenta, uma falta só era percebida entre 15 e 30 dias depois, atrasando ainda mais o repasse da vaga ao próximo da fila.

Mas, em junho de 2026, o deputado federal Amom Mandel (Republicanos-AM) formalizou denúncias à SES-AM e ao Ministério Público do Amazonas (MPAM) apontando esperas superiores a um ano no SISREG e falhas técnicas recorrentes no próprio Saúde AM Digital — incluindo relatos de pacientes cuja “fila virtual” da teleconsulta se encerra automaticamente sem atendimento. Um dos casos citados é o de uma paciente com lúpus, que precisa de acompanhamento clínico semestral e relatou exames essenciais pendentes havia praticamente um ano. O parlamentar também cobrou explicações sobre um contrato emergencial de R$ 196 milhões firmado pela gestão estadual.

No mesmo mês, o Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) abriu investigação — com pedido de medida cautelar — sobre possíveis irregularidades em contratos da SES-AM e do Complexo Regulador, com base na nova Lei de Licitações. O TCE-AM notificou a secretaria e o órgão gestor para apresentarem defesa.

Há ainda uma dimensão municipal que tensiona ainda mais o sistema estadual: em 2025, a rede municipal de Manaus (Semsa) rompeu unilateralmente o contrato com uma prestadora de exames laboratoriais, deixando cerca de 8 mil gestantes sem exames desde janeiro daquele ano. Sem alternativa municipal, esses exames foram redirecionados para a fila do SISREG estadual — mais um fator, entre vários, empurrando pacientes de uma rede sobrecarregada para outra.

Os vieses em disputa: quem fala o quê sobre a fila

Uma reportagem honesta sobre esse tema precisa deixar claro que praticamente todo número e toda promessa envolvendo o SISREG no Amazonas hoje está sendo produzido, usado ou contestado dentro de uma disputa eleitoral e de controle institucional. Vale separar as vozes:

— O governo estadual (SES-AM): tende a divulgar indicadores de melhoria pontual (como os dados de 2019-2020 e o lançamento do Saúde AM Digital) como evidência de gestão eficiente, mas passou a ser alvo direto de denúncias e de investigação do TCE-AM em 2026, o que fragiliza seu discurso de controle da fila no curto prazo.

— Os pré-candidatos ao governo do estado: David Almeida (Avante), ex-prefeito de Manaus, transformou o tema em compromisso central de campanha, prometendo “zerar a fila da vergonha, a fila da morte” do SISREG, com base no histórico de expansão da Atenção Primária municipal (de 47% para 94% de cobertura) durante sua gestão na prefeitura. Já o senador Omar Aziz (PSD), outro pré-candidato, evita a promessa de “zerar” e defende, em vez disso, ampliar a rede física — novos hospitais e policlínicas — como caminho mais realista para “destravar” a fila, reconhecendo implicitamente que o problema é de capacidade instalada e não apenas de gestão do sistema.

— O Legislativo e os órgãos de controle: o deputado federal Amom Mandel e o TCE-AM representam a voz de fiscalização técnica, cobrando dados concretos (tempo médio e máximo de espera por especialidade, número de pedidos parados há mais de 30, 60, 90, 180 e 365 dias) e questionando contratos específicos — uma abordagem menos política e mais orçamentária/administrativa.

— Os pacientes e a opinião pública: a reação nas redes sociais às promessas de campanha tem sido de ceticismo declarado, com relatos pessoais de esperas de seis meses ou mais contrapondo o discurso de “compromisso, não promessa”. Esse ceticismo tem base histórica: a própria trajetória do Amazonas mostra que uma redução acentuada da fila (2019-2020) não se sustentou no tempo.

— A rede municipal vs. a rede estadual: o episódio dos exames de gestantes em Manaus ilustra uma dinâmica recorrente em todo o Brasil — falhas de gestão ou contratos em um nível de governo (municipal) acabam sendo absorvidas pelo sistema de regulação do outro nível (estadual), dificultando atribuir responsabilidade a um único gestor.

Onde o Amazonas se encaixa no mapa nacional do SISREG

Comparado ao quadro nacional, o Amazonas reúne dois agravantes que poucos estados combinam na mesma intensidade: a concentração geográfica extrema da média e alta complexidade em Manaus, já que grande parte do interior depende de deslocamento fluvial ou aéreo para acessar especialistas; e uma taxa de ausencia muito alta (60%, segundo a própria SES-AM), que por si só desperdiça uma fração relevante da oferta de vagas já escassa. Nacionalmente, a literatura sobre ausencia no SUS mostra que o tempo de espera e o porte do município estão diretamente correlacionados com a taxa de faltas — ou seja, quanto mais a fila cresce, mais ela se autoalimenta: pacientes que esperam demais perdem o vínculo com a data marcada, desistem, ou já resolveram o problema por outra via (muitas vezes hospitalar, de forma mais cara e mais tardia).

Em termos de infraestrutura de sistema, o Amazonas usa o SISREG III padrão do Ministério da Saúde, ao contrário de estados/capitais que desenvolveram sistemas próprios — o que, em tese, facilita a interoperabilidade com a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), mas também significa que o estado depende de uma ferramenta genérica, sem as adaptações regionais que outros grandes centros conseguiram construir ao longo de duas décadas.

O que isso significa para a promessa de “zerar a fila”

Cruzando os dados técnicos com o quadro político-institucional, três conclusões ficam claras:

Zerar registros é possível; zerar a demanda represada, não — sem investimento estrutural continuado. O precedente de 2019-2020 mostra que reduções expressivas são alcançáveis com gestão de dados e fortalecimento da atenção primária, mas também mostra que o efeito não é permanente sem que a oferta de especialistas, exames e cirurgias cresça na mesma velocidade da demanda.

O problema atual do Amazonas parece ser tanto de oferta quanto de gestão de contratos. As denúncias de 2026 não giram em torno de “poucas vagas” apenas, mas de execução contratual, transparência de dados e funcionamento técnico das ferramentas (Saúde AM Digital), sinalizando que parte da fila de hoje pode ser reduzida por correções administrativas — sem que isso signifique “zerar” no sentido literal prometido em campanha.

O tema seguirá politizado até outubro. Com a eleição para governador marcada para 4 de outubro de 2026 (e eventual segundo turno em 25 de outubro), é esperado que tanto os números divulgados pelo governo quanto as denúncias da oposição e dos órgãos de controle continuem sendo usados como munição política — o que reforça a necessidade de checar sempre a fonte primária (dados oficiais do Complexo Regulador, relatórios do TCE-AM e do MPAM) antes de tomar qualquer número como definitivo.

Fontes consultadas: Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM); Ministério da Saúde/DATASUS (Wiki SISREG e páginas oficiais de regulação do acesso); reportagens de Fato Amazônico, Estado Político, Portal Em Tempo, Rios de Notícias, Portal Norte, Blog do Hiel Levy, Daqui de Manaus, Mix de Notícias e Agência Gov; Wikipédia (2026 Amazonas gubernatorial election); newsletter Valor Saúde (levantamento via LAI com dados do SISREG); artigos acadêmicos sobre absenteísmo em saúde especializada (Saúde em Debate).

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