Reportagem

Terras raras: o tesouro mineral que colocou o Brasil no tabuleiro da guerra entre EUA e China

 Com a segunda maior reserva do planeta, o país tenta transformar minério em soberania industrial — mas esbarra na falta de tecnologia de refino, em conflitos ambientais e na pressão de Washington e Pequim por influência sobre suas jazidas

RESERVA BIOLÓGICA MORRO DOS SEIS LAGOS – AM

Por trás de smartphones, carros elétricos, turbinas eólicas e mísseis guiados existe um grupo discreto de 17 elementos químicos sem os quais boa parte da tecnologia moderna simplesmente não funcionaria. São as chamadas terras raras — os 15 lantanídeos da tabela periódica somados ao ítrio e ao escândio. Apesar do nome, não são exatamente raras na crosta terrestre: o que é raro é encontrá-las em concentração e pureza suficientes para viabilizar a extração comercial.

Sua importância estratégica está ligada a propriedades magnéticas e elétricas incomuns. Elementos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio são a matéria-prima dos ímãs permanentes de altíssima performance, peça central em motores de veículos elétricos, geradores de turbinas eólicas, discos rígidos, sistemas de defesa, radares, mísseis e até em equipamentos médicos de ressonância magnética. Sem eles, a transição energética e boa parte da indústria de tecnologia perderiam sua espinha dorsal.

O Brasil senta em uma mina de ouro — mas ainda não a explora

O país detém hoje a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China, com estimativas que apontam para algo entre 21 milhões de toneladas e cerca de 23% das reservas globais conhecidas. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) já mapeou potencial para esses minerais em **12 estados**, com destaque para Minas Gerais, Goiás e Amazonas.

Ainda assim, o Brasil responde por apenas 1% da produção mundial do minério — um contraste que resume o desafio do país: ter a riqueza geológica, mas não (ainda) a musculatura industrial para explorá-la em escala.

Os principais polos hoje são:

– Minaçu (Goiás) — sede da mina Pela Ema, operada pela Serra Verde Pesquisa e Mineração, a primeira operação comercial em grande escala de terras raras do Brasil e da América Latina, em produção desde 2024. É apontada como a única produtora fora da Ásia capaz de fornecer, em escala, os quatro elementos magnéticos mais críticos e valiosos: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.

– Araxá e Poços de Caldas (Minas Gerais) — complexos de rochas alcalinas e argilas iônicas que concentram projetos de mineradoras como CBMM, Viridis Mining, Meteoric Resources e St George Mining, com previsão de novas operações entrando em produção até 2027.

– Catalão (Goiás) — depósitos associados a carbonatitos, com minerais estratégicos que incluem nióbio e terras raras.

– Pitinga (Amazonas) — mina histórica de estanho, hoje sob controle da chinesa China Nonferrous Trade, que também guarda reservas relevantes de disprósio, térbio, neodímio e praseodímio, inclusive em rejeitos já britados do processo mineiro.

– Morro dos Seis Lagos, em São Gabriel da Cachoeira (Amazonas) — considerado um dos maiores depósitos do mundo em elementos como nióbio e terras raras, com dezenas de milhões de toneladas mapeadas. É também o exemplo mais evidente do dilema brasileiro: a jazida está sobreposta à Terra Indígena Balaio, à Reserva Biológica estadual e ao entorno do Parque Nacional do Pico da Neblina, o que torna a mineração ali proibida por lei. Especialistas ouvidos pela imprensa amazônica lembram que qualquer avanço sobre a área exigiria mudança de legislação e geraria forte resistência de povos indígenas e ambientalistas.

 O gargalo que ninguém vence sozinho: extrair não é o mesmo que refinar

Se a geologia favorece o Brasil, a etapa que realmente concentra dinheiro e poder geopolítico é outra: o refino. Extrair o minério bruto é apenas o primeiro — e menos lucrativo — elo da cadeia. O verdadeiro valor está na separação química dos elementos e na fabricação de ligas e ímãs, etapas em que a China consolidou um domínio praticamente absoluto ao longo de mais de duas décadas de política industrial deliberada.

Hoje a China concentra algo entre 70% e 90% da capacidade global de refino de terras raras, além de deter fatia expressiva da mineração mundial. O resultado prático dessa distância tecnológica aparece no preço: enquanto um concentrado misto de terras raras pode valer cerca de US$ 10 por quilo, os óxidos já separados chegam a **US$ 50 a US$ 200 por quilo**, dependendo do elemento — e os ímãs permanentes de alta performance, produto final da cadeia, podem valer milhares de dólares por quilo.

O Brasil, por enquanto, está quase ausente desse elo de maior valor agregado: não possui plantas industriais de separação química em escala, o que o obriga a exportar concentrados brutos ou depender de parceiros estrangeiros para processar o material. Professores e consultores do setor mineral costumam comparar esse padrão ao histórico do país com outras riquezas naturais — ouro, ferro, petróleo — sempre exportadas com baixo valor agregado, sem que o Brasil avance para as etapas industriais mais lucrativas.

Uma disputa geopolítica que passa por Minaçu

A relevância das terras raras brasileiras não escapou ao radar de Washington. Em um movimento que reflete a tentativa americana de reduzir a dependência da China, o banco estatal de desenvolvimento dos EUA (DFC) ampliou para US$ 565 milhões o financiamento à Serra Verde, o que deu ao governo americano direito a uma participação acionária minoritária na mineradora goiana. Em abril de 2026, a americana USA Rare Earth anunciou a compra da própria Serra Verde por cerca de US$ 2,8 bilhões, além de um contrato de 15 anos para comprar 100% da produção inicial da mina, com preços mínimos garantidos — acordo capitalizado por agências do governo dos Estados Unidos e por capital privado.

Isso significa que praticamente toda a produção da fase inicial de Minaçu já está comprometida com esse contrato americano, o que limita, pelo menos por ora, a possibilidade de o próprio mercado brasileiro ser abastecido com o material extraído em seu território — um ponto que gera desconforto entre especialistas em soberania mineral.

O movimento americano é lido como parte de uma escalada mais ampla contra o domínio chinês: sozinha, a China responde por mais de 90% das importações de terras raras processadas usadas pelos Estados Unidos, e já demonstrou disposição para usar essa vantagem como instrumento de pressão comercial. Diante disso, o governo brasileiro tem tentado equilibrar o jogo. O presidente Lula chegou a admitir a possibilidade de parceria com os americanos na exploração de terras raras, mas o Brasil também recusou aderir a um fórum proposto pelos EUA sobre engajamento estratégico em recursos minerais, e mantém acordos paralelos com a China — maior parceiro comercial do país — em áreas como energia e tecnologia. Em junho de 2026, o G7 fechou um pacto para limitar a dependência de qualquer fornecedor único de terras raras a menos de 60% até 2030, o que analistas brasileiros interpretam como uma janela de oportunidade para o país ganhar poder de barganha na reorganização das cadeias produtivas globais.

Goiás x Brasília: quando um estado tenta negociar sozinho com Washington

A disputa geopolítica pelas terras raras brasileiras não opõe apenas Brasil e Estados Unidos — ela também escancarou uma rachadura institucional dentro do próprio país. Em março de 2026, o então governador de Goiás, Ronaldo Caiado, assinou no Consulado americano em São Paulo um memorando de entendimento diretamente com o governo dos Estados Unidos para tratar de pesquisa, exploração e instalação de plantas de separação e processamento de terras raras no estado. O documento foi firmado pelo *chargé d’affaires*[encarregado de negócios] americano Gabriel Escobar, em um fórum sobre minerais críticos que reuniu representantes de gigantes como Citi e Anglo American — mas do qual nenhum integrante de alto escalão do governo federal participou.

O problema é que, pela Constituição, os recursos minerais — inclusive os do subsolo — são bens da União, e a competência para legislar sobre jazidas e minas também é exclusivamente federal. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, reagiu classificando o episódio como uma iniciativa isolada que atropela essa competência, e o presidente Lula chegou a acusar Caiado de tentar “vender o Brasil” aos americanos. Críticos do acordo lembram ainda de um precedente do Supremo Tribunal Federal, de 2019, que já havia considerado inconstitucional uma lei estadual baiana sobre o mesmo tema.

O governo de Goiás rebate as críticas afirmando que não dispôs de recursos minerais nem legislou sobre jazidas — apenas exerceu prerrogativas legitimamente estaduais, como concessão de incentivos fiscais, criação de zonas de desenvolvimento e cooperação técnica para atrair investimento e tecnologia. Na prática, quem de fato autoriza a lavra mineral é a ANM, agência federal, o que dá algum respaldo técnico à defesa goiana. Ainda assim, o episódio tem peso político considerável: para autoridades brasileiras, o movimento foi lido como uma tentativa de Washington negociar por fora de Brasília, aproveitando um governador que era, à época, um rival político do presidente — evidenciando como a falta de uma política mineral federal clara para terras raras abre espaço para que estados e governos estrangeiros disputem influência sobre o mesmo ativo estratégico.

O preço ambiental da corrida mineral

O outro lado dessa disputa bilionária é local, e nem sempre aparece nos comunicados de investidores. Em Minaçu, relatórios de fiscalização da Secretaria de Meio Ambiente de Goiás e do Ibama já confirmaram poluição em córregos da região associada a irregularidades da própria Serra Verde, incluindo concentrações de metais pesados acima dos parâmetros de potabilidade. Organizações como a Comissão Pastoral da Terra apontam que a mineração de terras raras amplia conflitos pelo uso da água em comunidades do entorno.

No Amazonas, o impasse ambiental é ainda mais estrutural: áreas como o Morro dos Seis Lagos permanecem legalmente protegidas justamente por estarem sobrepostas a terras indígenas e unidades de conservação — um limite que a Agência Nacional de Mineração reafirma não poder ultrapassar, mesmo sob pressão de interesses econômicos crescentes.

 O que o Brasil ganharia se apostasse no beneficiamento

Para especialistas do setor mineral, a saída para o Brasil não repetir o padrão histórico de exportar riqueza bruta está justamente na etapa de beneficiamento e refino local. A intenção do governo, articulada inclusive em fóruns como o G7, é que a separação química, o refino e a transformação industrial das terras raras aconteçam em território nacional — o que aumentaria o valor agregado da produção e, sobretudo, geraria empregos qualificados que hoje ficam concentrados em outros países.

Estimativas da Deloitte em parceria com o UBS apontam que o investimento em minerais críticos, incluindo mineração, beneficiamento e refino, pode adicionar até R$ 243 bilhões ao PIB brasileiro nos próximos 25 anos no cenário mais otimista. Como a demanda global por terras raras deve crescer sete vezes até 2040, segundo a Agência Internacional de Energia, impulsionada pela transição energética e pela corrida tecnológica, o Brasil ainda tem tempo — mas uma janela que se estreita — para decidir se quer ser apenas fornecedor de matéria-prima ou, finalmente, um player industrial completo nessa cadeia.

Receba mensagem no WhatsApp