Aos 45 do segundo tempo, Wilson Lima e Tadeu renunciam e embaralham o tabuleiro eleitoral do Amazonas
Roberto Cidade assume o governo; ex-governador entra em campo pelo Senado e muda o jogo numa disputa que parecia definida

O apito final que ninguém esperava
As renúncias simultâneas do governador Wilson Lima (União Brasil) e do vice-governador Tadeu de Souza, oficializadas na noite de sábado (4), provocaram uma mudança imediata no comando do Amazonas. A decisão ocorreu a menos de uma hora do prazo final para desincompatibilização eleitoral.
Na linguagem do futebol, foi um gol marcado aos 45 minutos do segundo tempo — e ninguém estava esperando. Em 2 de março, Wilson Lima havia anunciado publicamente que permaneceria no cargo até o fim do mandato, declarando: “Ficarei até o dia 5 de janeiro de 2027” — uma promessa que durou pouco mais de um mês antes de ser descartada por força da estratégia eleitoral.
As cartas de renúncia foram escritas à mão e entregues às 23h, sendo publicadas em edição extra do Diário Oficial da Assembleia Legislativa do Amazonas. Em sua carta, Wilson Lima afirmou que a renúncia é “irrevogável e irretratável”, destacando que a medida atende ao prazo legal de seis meses para disputar outro cargo.
Os bastidores de um acordo relâmpago
Sob a pressão de um sábado chuvoso e decisivo em Manaus, Wilson Lima, Tadeu de Souza e o presidente da Assembleia Legislativa, Roberto Cidade, selaram um acordo que redesenha, de forma abrupta, o cenário eleitoral no Amazonas. A leitura política do grupo de Wilson Lima era objetiva: lançar Tadeu ao governo sem estar no exercício do cargo poderia expor fragilidade. Foi nesse ambiente de pressão que Roberto Cidade apresentou a proposta que mudou o rumo das negociações — a renúncia de Wilson e Tadeu, abrindo caminho para que ele assuma o governo e entre na disputa já sentado na cadeira.
Com a saída de Tadeu, fica encerrada qualquer possibilidade de aproximação do ex-vice-governador com o prefeito David Almeida, que chegou a ser ventilada nos bastidores como eventual apoio em segundo turno — especulação que havia plantado desconfiança nos corredores do Palácio do Governo. Tadeu deve agora concentrar forças na disputa por uma vaga na Câmara Federal.
Roberto Cidade: o novo mandatário — por 30 dias
Com a saída dos dois chefes do Executivo estadual, o presidente da Assembleia Legislativa, Roberto Cidade, assumiu automaticamente o Governo do Estado. A posse ocorre de forma imediata, conforme determina a linha sucessória estadual, e já foi formalizada após a publicação das cartas de renúncia.
O processo sucessório também altera o comando da própria Assembleia: o deputado estadual Adjuto Afonso, primeiro vice-presidente da casa, assume a presidência da Aleam.
O comando de Cidade, porém, tem prazo determinado. Nos termos da legislação, o presidente da Aleam governa por 30 dias, período dentro do qual a Assembleia Legislativa deverá convocar uma eleição indireta para a escolha do novo governador, que cumprirá o mandato restante até 31 de dezembro de 2026. O processo coloca os deputados estaduais no centro do poder — e transforma cada voto na Aleam em moeda de negociação política de alto valor.
A ascensão de Roberto Cidade ao governo amplia sua visibilidade e poder de articulação, fatores decisivos em um ano eleitoral. Mas é na Assembleia que o próximo capítulo será escrito — e ele começa já nas próximas semanas.
Wilson Lima volta ao campo — mas o jogo está difícil
A entrada de Wilson Lima na disputa pelo Senado agita uma corrida que já estava acirrada. A disputa pelas duas cadeiras disponíveis estava concentrada num “G-3” formado pelo Capitão Alberto Neto (PL), Eduardo Braga (MDB) e Plínio Valério (PSDB), cenário que colocava Wilson Lima em situação delicada — com risco real de ficar sem mandato a partir de 2027.
As pesquisas mais recentes mostram o tamanho do desafio. Em levantamento da Real Time Big Data, registrado no TRE, Capitão Alberto Neto lidera a corrida, e num cenário com a inclusão de Wilson Lima, há empate entre Braga e o governador, ambos com 16%, enquanto Plínio aparece com 15%.
Alberto Neto tem o entusiasmo, Braga tem a estrutura e Plínio tem a confiança — e Wilson Lima chega ao páreo buscando converter quatro anos de máquina estadual em capital eleitoral, num estado com duas vagas em aberto e pelo menos seis nomes fortes em campo.
O novo tabuleiro
A renúncia simultânea de governador e vice-governador é um fato inédito na história recente do Amazonas e produz um rearranjo em cadeia:
Wilson Lima deixa o Palácio Rio Negro e entra na disputa pelo Senado Federal, com chance real mas sem favoritismo claro nas pesquisas.
Tadeu de Souza disputará uma vaga na Câmara dos Deputados, afastada qualquer hipótese de candidatura ao governo ou aproximação com o campo de David Almeida.
Roberto Cidade governa o Amazonas por 30 dias. Em seguida, a Assembleia Legislativa deverá convocar uma eleição indireta para escolher o novo governador, que conduzirá o Estado até 31 de dezembro de 2026. A cadeira do Executivo, portanto, passa a ser disputada também dentro da própria Aleam — e quem vencer essa eleição indireta chegará ao pleito de outubro com o maior ativo político do Estado nas mãos.
Eduardo Braga, Capitão Alberto Neto e Plínio Valério seguem como os principais nomes na disputa pelos dois assentos no Senado, mas agora com um competidor a mais — e com nome — tentando furar o bloco.
A expectativa agora gira em torno dos próximos movimentos políticos no Estado, incluindo a definição oficial de candidaturas e a formação de chapas para a disputa de 2026. O Amazonas acaba de entrar, definitivamente, no tempo extra — e desta vez, com placar e árbitro ainda indefinidos.
*Reportagem produzida com base em informações dos blogs e portais locais de Manaus, cartas de renúncia e edição extra do Diário Oficial da Aleam, de 4 de abril de 2026.*
