Governo do Amazonas e Prefeitura de Manaus trocam acusações sobre dívida — e nenhum dos dois assume, de fato, a responsabilidade pelo caos sobre a paralisação no transporte coletivo
Vice-governador anuncia depósito de R$ 18 milhões em 24 horas para tentar conter a greve, mas Sinetram cobra R$ 90,1 milhões; prefeito Renato Júnior nega dívidas de 2026 e ainda assim vira alvo de cobranças por sua gestão do sistema de mobilidade urbana.

Ônibus parados, população refém
A frota de ônibus de Manaus parou na tarde de segunda-feira (20), deixando passageiros sem opção de deslocamento na capital. A paralisação teve origem no atraso do pagamento de salários da categoria — um problema que, mais uma vez, é jogado de um gestor para outro sem solução definitiva. Ainda na noite de segunda, o Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região classificou a greve como abusiva e impôs operação mínima de 80% da frota nos horários de pico e 50% fora deles. Até a atualização mais recente, porém, o sistema rodava apenas com metade dos veículos — o mínimo permitido, e um retrato do descaso que atinge quem depende do transporte público todos os dias.
Governo anuncia pagamento, mas contesta valor cobrado
Pressionado pela paralisação e pela repercussão negativa, o vice-governador Serafim Corrêa anunciou nesta terça-feira (21) o depósito de R$ 18 milhões referentes a seis meses de atraso do Passe Livre Estudantil — de fevereiro a julho de 2026. O montante, no entanto, está longe dos R$ 90,1 milhões que o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Amazonas (Sinetram) diz ter a receber. A distância entre os dois valores não é apenas contábil: é sintoma de uma gestão que trata o transporte coletivo como item secundário no orçamento, empurrando negociações e deixando trabalhadores e usuários pagando a conta pelo atraso.
Prefeitura se isenta, mas cobrança recai sobre a gestão municipal
Do outro lado do imbróglio, o prefeito Renato Júnior afirmou que o município não deve nenhum valor referente a 2026 e que repassou R$ 284 milhões ao Sinetram ao longo do ano, dentro do prazo. A declaração, contudo, não esclarece pendências de anos anteriores citadas pelo sindicato, e o silêncio sobre esse ponto levanta uma pergunta que a Prefeitura ainda não respondeu: se está tudo em dia, por que o sistema de transporte da capital segue refém de paralisações recorrentes? O prefeito aproveitou o momento para criticar o governador Roberto Cidade sobre uma eventual mudança no Passe Livre, mas evitou comentar sua própria responsabilidade na fiscalização e regulação do serviço, papel que cabe ao Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU).
A raiz do problema: uma conta que ninguém quer fechar
O impasse começou em 2025, quando terminou o convênio entre Estado e Prefeitura que bancava o Passe Livre Estudantil. Desde então, o Governo do Amazonas defende o pagamento pelo valor da meia-passagem (R$ 2,50), amparado por decisão judicial de junho de 2025. Já o Sinetram insiste que o valor correto é o da tarifa técnica, hoje superior a R$ 8 — mais de três vezes o que o Estado reconhece. É essa brecha interpretativa, mantida sem solução por mais de um ano, que hoje tira estudantes e trabalhadores das ruas e coloca em xeque a capacidade dos gestores públicos de honrar compromissos com a população.
O que fica em aberto
Passado mais um dia de crise, restam perguntas que os gestores ainda não responderam com clareza: quem, de fato, vai arcar com a diferença entre os R$ 18 milhões oferecidos e os R$ 90,1 milhões cobrados pelo Sinetram? Até quando o transporte público de Manaus vai operar como moeda de troca política entre Estado e Prefeitura? E, sobretudo, quem fiscaliza para que o cidadão não pague, mais uma vez, pela inércia de quem deveria geri-lo?
