Amazonas

Ilha Tupinambarana entra em transe: começa o 59º Festival de Parintins

Caprichoso e Garantido voltam a se enfrentar no Bumbódromo em três noites de música, alegorias e disputa pelo título de 2026

Pito Silva • Cedidas/Amazon Rec Produções

Parintins (AM), 26 de junho de 2026 — A “Ilha da Magia” já não dorme. Nesta sexta-feira, às 20h no horário local (21h em Brasília), o Bumbódromo abre oficialmente a 59ª edição do Festival Folclórico de Parintins, reunindo, mais uma vez, os bois-bumbás Garantido e Caprichoso na maior disputa folclórica a céu aberto do mundo. São três noites — 26, 27 e 28 de junho — que vão decidir quem leva o título de 2026, com apuração marcada para a segunda-feira, dia 29.

Cada apresentação tem até duas horas e meia de duração e é avaliada por um júri especializado em 21 itens, que vão do canto à coreografia, passando por alegorias gigantes e rituais indígenas. A dinâmica da arena segue um código não escrito tão respeitado quanto o regulamento oficial: enquanto um boi se apresenta, a torcida do rival — a “galera” — deve permanecer em silêncio, sob risco de punição ao próprio boi.

A ordem da disputa

Em sorteio realizado no próprio Bumbódromo no sábado anterior ao festival, os dirigentes definiram a sequência das apresentações: o Boi Caprichoso, da cor azul e branca, abre as três noites; o Garantido, vermelho e branco, fecha todas elas. A ordem se repete nos três dias. O presidente do Garantido, Fred Góes, descartou qualquer peso simbólico na escolha, afirmando que o título será decidido pela qualidade do espetáculo e pela nota dos jurados.

Como funciona a apuração

O campeão é definido pela soma das notas dadas por jurados em 21 itens, divididos em três blocos:

  • Bloco A — quesitos comuns e musicais;
  • Bloco B — cenografia e coreografia;
  • Bloco C — itens artísticos.

Cada bloco é avaliado por três jurados com formação em folclore e manifestações culturais brasileiras. As notas vão de zero a dez, com casas decimais — o que torna a disputa, historicamente, decidida por margens mínimas: em 2025, o Garantido fechou com 1.259 pontos contra 1.257,7 do Caprichoso.

Os temas de 2026

Cada boi chega à arena com um enredo dividido em três subtemas, um por noite:

Boi Garantido“Parintins: Portal do Encantamento”

  • Noite 1: “Portal do Encantamento”
  • Noite 2: “Portal da Diversidade”
  • Noite 3: “Terra Encantada”

Boi Caprichoso“Brinquedo que Canta Seu Chão”

  • Noite 1: “O Brinquedo do Povo Canta: Parintins – O Chão de Origem”
  • Noite 2: “O Brinquedo Ancestral Canta: Amazônia, o Chão da Vida”
  • Noite 3: “O Brinquedo da Resistência Canta: Norte Brasil – Chão de Bravos”

No retrospecto recente, o Garantido chega como atual campeão, com o 33º título conquistado em 2025, contra 31 títulos do Caprichoso.

Os rostos da disputa: quem carrega cada boi à arena

Por trás das alegorias gigantes, o festival é decidido por pessoas — quase 4 mil integrantes por boi, entre eles os “itens” oficiais que respondem por cada quesito do julgamento. Alguns dos mais emblemáticos desta edição:

Item 1 — Apresentador. Conduz o espetáculo, anunciando cada etapa para o público: Edmundo Oran (Caprichoso) e Israel Paulain (Garantido).

Item 2 — Levantador de Toadas. É quem canta as músicas que sustentam a apresentação e agitam a torcida: Patrick Araújo, no Caprichoso, e David Assayag, no Garantido — curiosamente, tio e sobrinho na vida real, ligados por um laço de família que atravessa a rivalidade dos bois.

Item 5 — Porta-Estandarte. Conduz o pavilhão da agremiação: Marcela Marialva (Caprichoso) e Jeveny Mendonça (Garantido).

Item 6 — Amo do Boi. O “dono da fazenda” do auto do boi: Caetano Medeiros (Caprichoso) e João Paulo Faria (Garantido).

Item 7 — Sinhazinha da Fazenda. Representa a filha do dono da fazenda na narrativa: Valentina Cid (Caprichoso) e Raíra Lins (Garantido).

Item 8 — Rainha do Folclore. Personifica a manifestação popular em si: Cleise Simas (Caprichoso) e Lívia Christina (Garantido).

Item 9 — Cunhã-Poranga. “Moça bonita, sacerdotisa, guerreira e guardiã” — um dos itens mais simbólicos e populares do festival: Marciele Albuquerque, indígena do povo Munduruku, no Caprichoso, e Isabelle Nogueira, ex-BBB, no Garantido. Ambas ganharam projeção nacional para além da arena — Isabelle no BBB 24, e Marciele disputando recentemente uma vaga na Casa de Vidro pré-BBB 26.

Item 10 — Boi-Bumbá (Tripa do Boi). O artista que dá movimento ao boi, símbolo máximo da manifestação: Alexandre Simas Azevedo (Caprichoso) e Denilson Piçanã (Garantido) — este, aliás, recém-celebrado por uma despedida histórica após 30 anos no posto, passando o bastão ao filho.

Item 12 — Pajé. O xamã que, no enredo, ressuscita o boi: Erick Beltrão (Caprichoso) e Adriano Paketá (Garantido).

As toadas (item 11, letra e música) seguem sendo o coração emocional da disputa: cada boi lança, todos os anos, um álbum com cerca de 15 a 20 composições inéditas. Nesta temporada, o Caprichoso apresentou faixas como “Consagrada Cunhã” — dedicada à própria Marciele Albuquerque —, além de “A Deusa e o Estandarte” e “Leveza de Sinhá”. Os dois bois também mantiveram a tradição do projeto #Toadas, que desde fevereiro reúne os levantadores em apresentações abertas ao público em Manaus para aquecer a torcida antes do festival.

Os 21 itens: como o festival é julgado por dentro

Além dos itens individuais já citados, o regulamento avalia outros 12 quesitos, quase sempre coletivos, que dão a real dimensão da engenharia humana por trás do espetáculo: Batucada/Marujada (a base rítmica, chamada de “Marujada” no Caprichoso e “Batucada” no Garantido); Ritual Indígena; Povos Indígenas (corpo de dança com mais de 160 jovens); Tuxauas (a liderança das aldeias, em indumentárias gigantes); Figura Típica Regional (tacacazeiras, farinheiros, pescadores e outros símbolos do cotidiano amazônico); Alegorias (as estruturas cenográficas monumentais); Lenda Amazônica (a recriação cênica de mitos como a cobra que vira homem ou o curupira); Vaqueirada (jovens voluntários da comunidade que “protegem” o boi); Galera (a torcida nas arquibancadas, que também é item julgado); Coreografia; e Organização do Conjunto Folclórico, que pune improvisos visíveis ou falta de planejamento.

O Bumbódromo: presente e futuro

A arena que recebe o público nesta edição ainda é a mesma estrutura inaugurada em 1988, com capacidade oficial de 14,7 mil pessoas — embora a organização tenha projetado fluxo de público de até 25 mil pessoas por noite ao longo dos três dias, somando arquibancadas, áreas externas e camarotes. Essa distinção importa: o novo Bumbódromo, com capacidade ampliada para 25 mil lugares sentados, área construída triplicada (de 19 mil para 61 mil m²) e 20 novos camarotes, é um projeto anunciado em março, ainda em fase de licitação, com obras previstas para não interromper os festivais futuros e entrega estimada para 2030. Ou seja: 2026 é vivido na estrutura atual, com o anúncio do “Bumbódromo do futuro” funcionando como pano de fundo institucional da edição.

A ilha lotada: hospedagem em ponto de saturação

Se há um símbolo da pressão logística desta edição, é a hotelaria. Um levantamento apontou que 100% dos leitos da rede hoteleira tradicional de Parintins esgotaram suas reservas meses antes do festival — dez dos principais hotéis e pousadas fecharam vendas ainda no início do ano. Os pacotes tradicionais de cinco dias variaram entre R$ 3 mil e R$ 5 mil (para grupos de três a quatro pessoas).

Diante da escassez, o mercado imobiliário local virou rota de fuga: aluguel de casas particulares por temporada, com pacotes de cinco dias que vão de R$ 12 mil a R$ 17 mil em imóveis padrão — e que podem alcançar R$ 247 mil em propriedades de alto padrão para até dez pessoas, o equivalente a quase R$ 50 mil por diária.

A alternativa mais democrática segue sendo fluvial: barcos de passageiros saindo de Manaus e de municípios vizinhos funcionam como hospedagem econômica, com o próprio bilhete de embarque garantindo o direito de permanecer atracado no porto, dormindo em redes nas áreas comuns durante os dias de festa. Quem busca mais conforto encontra camarotes e cabines privativas em caravanas fluviais. A cidade também viu surgir os chamados “redários” — galpões e espaços coletivos destinados exclusivamente à armação de redes para visitantes.

Como chegar à Ilha Tupinambarana

O acesso a Parintins, distante cerca de 369 km de Manaus, só é possível por via aérea ou fluvial. A viagem de barco regional dura entre 9 e 24 horas, dependendo da embarcação e da correnteza, e operadoras recomendam compra de passagens com 4 a 6 meses de antecedência — em alta temporada, lanchas rápidas (como as da linha Manaus–Parintins) chegam a fazer o trajeto em cerca de 9 horas.

Tuc-tuc: o transporte que se tornou símbolo da ilha

Dentro da cidade, o deslocamento tem cara própria. O tuc-tuc — triciclo motorizado inspirado nos populares riquixás indianos, batizado de DuCar localmente — foi introduzido em 2018 por um empresário parintinense após viagem à Índia, e regulamentado pela prefeitura em 2019, com rotas, tarifas e licenças definidas. Hoje é tão característico da paisagem urbana que marcas patrocinadoras do festival o adotam em ações promocionais nas ruas durante os dias de disputa.

O tuc-tuc motorizado, porém, divide espaço — e gera tensão econômica — com uma tradição ainda mais antiga: os triciclos tricicleiros, bicicletas adaptadas para transporte de passageiros, organizadas pela Associação dos Tricicleiros Turísticos do Porto de Parintins, oferecendo passeios turísticos de aproximadamente 1h30 pela cidade. Tricicleiros cobram cerca de R$ 10 por passageiro, contra R$ 15 do tuc-tuc motorizado — uma diferença que, segundo condutores mais antigos, ameaça a sobrevivência do ofício tradicional, já praticado majoritariamente por trabalhadores acima de 40 anos.

Transmissão: a festa que sai da ilha

Para quem não consegue chegar à Ilha Tupinambarana, a TV A Crítica transmite as três noites de competição pela TV aberta e pelo canal oficial no YouTube, com exibições liberadas em tempo real a cada noite — modelo que, segundo a organização, amplia o alcance do espetáculo para todo o Brasil sem custo ao espectador remoto.

O pano de fundo econômico

Segundo o governo do Amazonas, o festival movimentou cerca de R$ 184 milhões em 2025, com expectativa de alcançar R$ 193,2 milhões nesta edição. Para 2026, o governo estadual destinou R$ 10 milhões em patrocínio direto às agremiações — R$ 5 milhões para cada boi —, somando-se aos recursos da prefeitura de Parintins, do governo federal e de patrocinadores privados.

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