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Operação Erga Omnes: como o Comando Vermelho infiltrou o poder público do Amazonas e chegou ao gabinete do prefeito de Manaus

Com 14 presos e R$ 70 milhões movimentados em sete anos, ação da Polícia Civil expõe um ‘núcleo político’ da facção com ramificações no Executivo, Legislativo e Judiciário estadual

A Polícia Civil do Amazonas deflagrou, na manhã da última sexta-feira (20/2), a Operação Erga Omnes, ação que investigou e combateu um esquema de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva e violação de sigilo funcional. A investigação, conduzida pelo 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), teve início em agosto de 2025, a partir da apreensão de mais de 500 tabletes de maconha do tipo skunk, sete fuzis de uso restrito, além de embarcações e veículos usados no transporte interestadual de drogas.

Ao todo, a Justiça autorizou 23 mandados de prisão preventiva e 24 mandados de busca e apreensão, cumpridos simultaneamente em Manaus e nas cidades de Belém (PA), Ananindeua (PA), Belo Horizonte (MG), Fortaleza (CE), Teresina (PI) e Estreito (MA). Até o momento, 14 pessoas foram detidas, oito delas no Amazonas.

O esquema

Segundo as autoridades, o grupo investigado movimentou aproximadamente R$ 70 milhões ao longo de sete anos — uma média anual de R$ 9 milhões desde 2018 — por meio de empresas de fachada utilizadas para adquirir drogas da Colômbia e transportá-las até Manaus e outros estados. O mapeamento das conexões interestaduais foi feito a partir da extração de dados telemáticos de celulares dos investigados.

“As diligências apontaram que o grupo atuava de forma organizada, com divisão de tarefas e estruturação em núcleos operacional, financeiro e de apoio logístico”, informou o delegado Marcelo Martins, titular do 24º DIP. Relatórios de inteligência financeira também apontaram “incompatibilidade entre o volume financeiro movimentado e a capacidade econômica” declarada pelos envolvidos.

Além dos mandados de prisão e busca e apreensão, a polícia solicitou à Justiça a quebra de sigilo bancário e fiscal, o bloqueio e o sequestro de bens e valores dos suspeitos.

O ‘núcleo político’ e a chegada ao poder público

O ponto mais sensível da investigação é a existência de um chamado “núcleo político” do Comando Vermelho, formado por suspeitos com acesso aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário do Amazonas. As investigações mostraram “indícios de tentativas de obtenção indevida de informações sigilosas relacionadas a procedimentos criminais, com o objetivo de antecipar ações policiais e judiciais”.

Entre os presos, há um servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM), ex-assessores parlamentares e uma servidora cedida à Casa Civil da Prefeitura de Manaus, ex-chefe de gabinete do prefeito David Almeida (Avante).

Quem é Anabela Cardoso Freitas

O nome que mais repercutiu na operação é o de Anabela Cardoso Freitas, investigadora de carreira da Polícia Civil do Amazonas, advogada com registro ativo na OAB-AM e servidora cedida à Prefeitura de Manaus, onde atuava como assessora da Casa Civil — a estrutura mais próxima do prefeito.

Formada em Direito pelo Centro Universitário de Ensino Superior do Amazonas (Ciesa) em 2004 e pós-graduada em Segurança Pública e Inteligência Policial pela Fametro em 2012, Anabela ingressou na Polícia Civil em 2011, com salário estimado em R$ 20.923,69 em 2025. Cedida à Assembleia Legislativa em 2015, ela atuou como assessora da Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJR).

Sua trajetória se entrelaça com a de David Almeida desde 2017, quando o atual prefeito presidia a Aleam. Com a eleição de Almeida à Prefeitura em 2020, Anabela foi nomeada em 2021 para a chefia de gabinete da gestão municipal, função que exerceu até 2023. Em janeiro de 2025, foi designada para a Comissão de Licitação da Prefeitura, posição que ocupava no momento da prisão. Entre 2021 e 2025, ela recebeu pelo menos R$ 586.463,85 em remuneração líquida paga pela Prefeitura de Manaus.

Segundo as investigações, ela teria repassado aproximadamente R$ 1,5 milhão à facção criminosa por meio de empresas de fachada.

Anabela foi casada com o advogado criminalista Armando de Oliveira Freitas, de 80 anos, assassinado em 5 de maio de 2018, quando chegava ao seu escritório no bairro Glória e recebeu três tiros.

A defesa de Anabela declarou que ela não possui qualquer relação com organizações criminosas ou com outros investigados na operação, e que nunca foi investigada ou processada anteriormente por qualquer crime.

Os oito presos no Amazonas

Confira a lista completa dos detidos no estado:

Izaldir Moreno Barros — servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas; Adriana Almeida Lima — ex-secretária de gabinete de liderança na Assembleia Legislativa do Amazonas; Anabela Cardoso Freitas — investigadora da Polícia Civil e ex-chefe de gabinete do prefeito; Alcir Queiroga Teixeira Júnior — investigado por movimentações financeiras suspeitas; Josafá de Figueiredo Silva — ex-assessor parlamentar; Osimar Vieira Nascimento — policial militar; Bruno Renato Gatinho Araújo — investigado por participação no esquema; Ronilson Xisto Jordão — preso em Itacoatiara (AM).

A reação da Prefeitura e do TJ-AM

Em nota, a Prefeitura de Manaus afirmou que o prefeito David Almeida e a estrutura administrativa municipal não são alvo das investigações, reforçando “compromisso absoluto com a legalidade, a transparência e o respeito às instituições”. A gestão assegurou que qualquer servidor investigado “responderá individualmente por seus atos, nos termos da lei”. O posicionamento foi imediatamente alvo de críticas nas redes sociais, onde moradores questionaram a proximidade da investigada com o chefe do Executivo municipal.

O Tribunal de Justiça do Amazonas também emitiu nota, sem citar nomes, informando que está adotando as medidas cabíveis no âmbito administrativo e que “não compactua com quaisquer condutas incompatíveis com os deveres funcionais”.

Investigações continuam

A Polícia Civil informou que a investigação permanece em andamento e que novas fases não estão descartadas. Segundo o delegado Marcelo Martins, as provas coletadas nas buscas realizadas na sexta-feira servem para comprovar não apenas a lavagem de dinheiro, mas também outros crimes. O objetivo agora é identificar novos envolvidos e aprofundar o mapeamento do “núcleo político” da organização.

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