Fundo dos Rios Amazônicos revelado: tecnologia 3D mapeia o leito submerso pela primeira vez
Serviço Geológico do Brasil percorre 1.550 km em 16 dias e identifica cabos, dutos e pilares de pontes com equipamento de ponta

Uma missão histórica nas águas da Amazônia
Pelo fundo dos rios amazônicos nunca havia passado o olhar detalhado de um órgão público — até agora. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) realizou, pela primeira vez, o mapeamento tridimensional do leito dos rios da região, abrindo caminho para avanços na navegação, na segurança de infraestruturas e na compreensão da dinâmica fluvial.
16 dias, 1.550 quilômetros, 91 km² mapeados**
A operação aconteceu entre 28 de janeiro e 12 de fevereiro, quando técnicos percorreram a Região Metropolitana de Manaus avançando pelo Rio Solimões. Foram mais de 170 horas embarcadas, resultando no mapeamento de 91 km² de fundo fluvial — com profundidades de até 120 metros registradas.
O equipamento que tornou tudo possível
O levantamento foi feito com um ecobatímetro multifeixe com backscatter, aparelho até então utilizado em estudos oceânicos e adquirido com recursos da Casa Civil. O sistema emite múltiplos feixes sonoros em direção ao fundo do rio; os sinais retornam com diferentes intensidades conforme o tipo de sedimento ou estrutura encontrada, gerando mapas detalhados da topografia subaquática.
O que foi encontrado no fundo dos rios**
Já nos primeiros resultados, o equipamento identificou estruturas geológicas e avaliou a integridade de infraestruturas submersas. “Observamos cabos ópticos, dutos de gás e pilares de pontes”, relatou André Martinelli, gerente de hidrologia e gestão territorial da Superintendência Regional de Manaus. Segundo ele, o sistema permite verificar se essas estruturas estão protegidas ou expostas e se necessitam de manutenção.
Cheias, secas e sedimentos: entender para proteger
Martinelli destacou que o aparelho também será fundamental para estudar o transporte de sedimentos pelas dunas fluviais, fenômeno ainda pouco compreendido pela ciência. O contexto climático reforça a urgência: “Nos últimos anos tivemos grandes cheias, como em 2009, 2012, 2014, 2019 e 2021, além das secas recentes. Esse equipamento é mais uma ferramenta para entender como esses eventos afetam os rios e mensurar seus impactos”, explicou.
Uma política de Estado em construção**
Os dados coletados serão compartilhados com órgãos públicos federais, estaduais e municipais para decisões sobre segurança da navegação, proteção de infraestruturas estratégicas e ordenamento do uso do leito dos rios. A meta, segundo Martinelli, é expandir o monitoramento para outras regiões do Amazonas e tornar a iniciativa uma política permanente de Estado.
Os resultados consolidados, incluindo artigos científicos, notas técnicas e mapas temáticos, serão divulgados pelo SGB em até dois meses.
*Com informações do G1 Amazonas
