Investigadora afastada por conduta homofóbica em shopping de Manaus tem porte de arma suspenso
Polícia Civil do Amazonas adota medidas administrativas após viralização de vídeos que mostram agressões verbais a casal LGBTQ+ e funcionária de estabelecimento comercial

Episódios de discriminação geram repercussão e mobilizam Corregedoria
A investigadora Ana Paula Macedo, da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), foi afastada das atividades operacionais após a divulgação de vídeos que registram ataques homofóbicos e comportamento agressivo em locais públicos de Manaus. Os incidentes, que viralizaram nas redes sociais na última semana de dezembro de 2024, ocorreram no Shopping Millennium, na zona Centro-Sul da capital amazonense, e em uma conveniência no bairro Ponta Negra, zona oeste.
O caso mais grave aconteceu na praça de alimentação do Shopping Millennium, onde a agente foi filmada agredindo verbalmente um casal homoafetivo. Nas imagens, a investigadora aparece exaltada, proferindo xingamentos e expressões discriminatórias contra dois homens que caminhavam de mãos dadas pelo estabelecimento. Ao perceber que estava sendo filmada, a servidora tentou tomar o celular da pessoa que registrava a cena.
Segundo relato de uma das vítimas, identificada como Lucas Costa, a abordagem ocorreu de forma gratuita, sem qualquer situação que justificasse a intervenção. A investigadora teria se incomodado com a demonstração pública de afeto entre o casal e, durante a confusão, chegou a invocar sua condição de policial civil como forma de intimidação.
Segundo incidente reforça padrão de comportamento agressivo
No mesmo dia, ainda usando o mesmo vestido preto, Ana Paula Macedo foi protagonista de outro episódio conflituoso. Desta vez, em uma loja de conveniência no bairro Ponta Negra, a investigadora discutiu com uma funcionária do caixa, alegando que alguém havia furado a fila de atendimento.
As imagens mostram a agente utilizando tom agressivo e palavras ofensivas contra a trabalhadora, exigindo a presença do gerente do estabelecimento. A situação escalou a ponto de exigir o acionamento da Polícia Militar do Amazonas (PMAM). Mesmo diante dos policiais militares, a investigadora manteve a postura alterada e continuou discutindo de forma exaltada.
Os dois episódios, registrados em vídeo e amplamente compartilhados nas redes sociais entre os dias 30 e 31 de dezembro, provocaram forte reação pública e intensificaram o debate sobre discriminação, abuso de autoridade e a conduta de agentes públicos fora do exercício formal de suas funções.
Polícia Civil adota medidas administrativas e suspende porte de arma
Em nota oficial divulgada no dia 2 de janeiro de 2026, a Polícia Civil do Amazonas informou que a investigadora já estava afastada das atividades operacionais antes da divulgação dos vídeos, encontrando-se readaptada para o exercício exclusivo de funções administrativas, conforme previsto na legislação vigente.
A corporação esclareceu que a situação funcional e de saúde da servidora está sendo avaliada por equipe médica da instituição. Segundo a PC-AM, Ana Paula Macedo vem sendo acompanhada pelo serviço psicossocial desde a identificação de um quadro clínico, como parte dos protocolos internos adotados em casos dessa natureza.
Como medida imediata, o porte de arma da investigadora foi suspenso. A PC-AM informou que todas as providências cabíveis relacionadas à condição funcional da servidora estão sendo adotadas, seguindo rigorosamente os trâmites legais e administrativos estabelecidos.
Processo Administrativo Disciplinar em andamento
Embora a nota oficial da Polícia Civil não tenha mencionado explicitamente a abertura de Processo Administrativo Disciplinar (PAD), fontes ligadas à corporação confirmam que a Corregedoria-Geral do Sistema de Segurança Pública está conduzindo apuração formal para investigar a conduta da servidora.
O procedimento administrativo tem como objetivo verificar se houve transgressão disciplinar, discriminação, intolerância ou abuso de autoridade por parte da agente. Caso confirmadas as irregularidades, Ana Paula Macedo poderá responder por infrações previstas no estatuto dos servidores públicos, que incluem advertência, suspensão ou até demissão, dependendo da gravidade dos fatos apurados.
A Polícia Civil reafirmou, em sua manifestação oficial, que não compactua com qualquer tipo de discriminação, intolerância ou abuso de autoridade, ressaltando que as atitudes registradas nos vídeos não refletem os valores e princípios da instituição.
Vítimas relatam constrangimento e discriminação
As vítimas dos episódios relataram profundo constrangimento e classificaram as abordagens como discriminatórias. O casal homoafetivo destacou que a situação foi humilhante e que a postura da investigadora reforça práticas de preconceito que ainda persistem em espaços públicos.
A funcionária da loja de conveniência, que também foi alvo de agressões verbais, não se pronunciou publicamente sobre o caso, mas testemunhas presentes no local confirmaram o tom agressivo e desrespeitoso utilizado pela agente policial.
Organizações de defesa dos direitos LGBTQ+ manifestaram repúdio ao episódio e cobraram rigor na apuração dos fatos. Representantes do movimento LGBTQ+ no Amazonas destacaram que episódios como esse demonstram a necessidade de formação continuada e sensibilização de agentes de segurança pública sobre diversidade e direitos humanos.
Próximos passos e consequências previstas
Com o afastamento administrativo já efetivado e o porte de arma suspenso, a investigadora Ana Paula Macedo aguarda o desenrolar das investigações internas. O prazo para conclusão de um Processo Administrativo Disciplinar pode variar conforme a complexidade do caso, mas geralmente não ultrapassa 60 dias, podendo ser prorrogado em situações excepcionais.
A corporação informou que continuará prestando acompanhamento médico e psicossocial à servidora, ao mesmo tempo em que avança com os procedimentos disciplinares necessários. A PC-AM reforçou seu compromisso com a preservação dos direitos e deveres de seus servidores, mas também com a responsabilidade de apurar rigorosamente condutas que contrariem os princípios institucionais.
O caso segue repercutindo nas redes sociais e levanta discussões importantes sobre discriminação, respeito à diversidade e os limites da autoridade policial, mesmo quando agentes não estão em serviço. A expectativa é que a conclusão do processo administrativo ocorra nas próximas semanas, definindo as penalidades aplicáveis à investigadora conforme a gravidade das infrações constatadas.
