Roda-gigante de Manaus encerra operações sob suspeita de irregularidades no contrato
Instalada às vésperas da inauguração por uma empresa criada dois dias antes, a atração da Ponta Negra virou alvo do Ministério Público e de vereadores — e saiu de cena antes do prazo

Quem anunciou o fim das atividades da roda-gigante na Ponta Negra foi o próprio empresário Jean Praia, responsável pela operação. Em publicação nas redes sociais, ele declarou ter enfrentado desinformação ao longo do projeto e garantiu ter respondido a cada questionamento com transparência. “Missão cumprida: com a verdade e muito trabalho”, escreveu.
A estrutura foi desmontada parcialmente no dia 13 de abril de 2026, antes de expirar o prazo contratual de seis meses — vigência que havia sido estabelecida desde a abertura, em novembro do ano anterior.
A empresa e a autorização
A Wheel Manaus J.P. Diversões Ltda., firma responsável pela operação da atração, foi registrada em 18 de novembro de 2025 — apenas dois dias antes da inauguração da roda-gigante. O detalhe alimentou suspeitas sobre a lisura do processo de contratação.
A situação ganhou contorno ainda mais nebuloso quando se verificou que a autorização publicada no Diário Oficial do Município estava em nome de outra empresa: a H. M. Diversões Ltda., conhecida pelo nome fantasia Nenê Park. Havia sido essa empresa que a Prefeitura de Manaus, ainda sob a gestão de David Almeida (Avante), havia anunciado como responsável pela operação.
“Hoje encerro um dos capítulos mais gratificantes da minha trajetória […]. Enfrentamos críticas, superamos dificuldades, por vezes tivemos que lidar com notícias falsas e ruídos de quem não conhece o suor que corre por trás das luzes. Cada fake news foi combatida com transparência.”
Laços políticos e polêmicas comerciais
Além das dúvidas sobre a contratação, a proximidade entre Jean Praia e o ex-prefeito David Almeida gerou questionamentos. Imagens e relatos de testemunhas apontam que o empresário foi um dos protagonistas da campanha pela reeleição de Almeida em 2024, o que intensificou as críticas à forma como a concessão do espaço foi conduzida.
O valor do ingresso também entrou na mira do debate público. Com entrada inteira a R$ 40 e meia entrada a R$ 20, o preço foi considerado elevado por parte da população.
A atuação do vereador Rodrigo Guedes
Um dos fiscalizadores mais ativos do caso foi o vereador Rodrigo Guedes (Republicanos/Progressistas). Ele questionou publicamente a legalidade da concessão e exigiu que a Prefeitura entregasse os documentos relativos ao contrato. Em dezembro de 2025, um requerimento seu pedindo esclarecimentos sobre a atração foi derrubado pelos colegas na Câmara Municipal.
Guedes também afirmou ter sido processado pelo ex-prefeito em razão das denúncias — e alegou ter saído vitorioso da disputa judicial. Foi ele quem formalizou a denúncia ao Ministério Público, por meio da Ouvidoria-Geral da instituição.
MP INVESTIGA
O inquérito do Ministério Público
Diante das denúncias, o Ministério Público do Amazonas (MPAM) instaurou procedimento para apurar como ocorreu a contratação da Wheel Manaus J.P. Diversões Ltda. e se a gestão municipal observou as exigências legais. O caso foi distribuído ao promotor Edinaldo Medeiros, titular da 77ª Promotoria de Defesa do Patrimônio Público.
O escrutínio se acentuou após um episódio de falha técnica: em 22 de novembro de 2025, a roda-gigante apresentou pane e deixou pessoas presas em cabines no alto da estrutura. Em sua defesa, o Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb) sustentou que a instalação seguiu todos os trâmites legais, incluindo laudos técnicos e Termo de Cessão de Uso Oneroso.
Com informações da Revista Cenarium / Manaus
