Amazônia

Como a Amazônia se tornou território do tráfico internacional de cocaína

Estudo do projeto Amazônia 2030 revela que homicídios em municípios pequenos da região saltaram de 10 para 30 por 100 mil habitantes em duas décadas — e facções como PCC e CV já atuam em 344 municípios.

Redação Especial  ·  Dados: Amazônia 2030 / SIM-DATASUS / IBGE  ·  Abril de 2026

Entre 1999 e 2023, a Amazônia acumulou 18.755 homicídios em excesso em relação ao restante do Brasil — mortes que, segundo pesquisadores, poderiam ter sido evitadas sem a presença de atividades ilegais na região.

O Cenário

A Amazônia Legal é hoje o epicentro de uma crise de violência sem precedentes no Brasil. Enquanto o restante do país viu suas taxas de homicídio crescerem de forma moderada nas últimas duas décadas, os municípios pequenos da região — aqueles com menos de 100 mil habitantes — percorreram um caminho radicalmente diferente.

No início dos anos 2000, as taxas de violência eram semelhantes em todo o Brasil: cerca de 10 homicídios por 100 mil habitantes. Em 2023, os pequenos municípios da Amazônia chegaram a 30 por 100 mil, enquanto o restante do país registrava 20. A diferença, que praticamente não existia, se tornou um abismo.

É o que aponta o relatório Da Exploração Ilegal de Recursos Naturais ao Tráfico Internacional de Cocaína: Padrões de Violência na Amazônia Brasileira, elaborado pelo projeto Amazônia 2030 por pesquisadores da USP e do Insper.

A Escalada em Quatro Fases

A pesquisa identificou que a violência não cresceu de forma uniforme. Ela seguiu os ciclos dos mercados ilegais que foram se instalando progressivamente na floresta.

[2003 – 2009] Exploração ilegal de madeira

Conflitos por acesso às zonas madeireiras elevaram as taxas de homicídio em até 10 mortes por 100 mil hab. acima das áreas sem risco.

[2006 – 2014] Grilagem de terras

A sobreposição de registros do Cadastro Ambiental Rural (CAR) sobre Florestas Públicas Não Destinadas alimentou disputas fundiárias violentas.

[2013 – 2023] Mineração ilegal de ouro

Jazidas em terras indígenas e unidades de conservação atraíram disputas crescentes, com impacto que se estende até o presente.

[2015 – 2023] Facções e tráfico de drogas

A consolidação das hidrovias amazônicas como rotas do tráfico de cocaína — impulsionada pela interdição aérea de 2004 — trouxe o crime organizado para comunidades antes isoladas.

O Peso de Cada Fator

Os pesquisadores calcularam quanto cada atividade ilegal contribuiu para o excesso de violência. Se até 2017 as facções respondiam por 29% das mortes associadas a fatores de risco, entre 2018 e 2023 esse número saltou para 56%. Juntos, os quatro fatores explicam 60% do excesso de homicídios na região.

Facções / tráfico (2018–2023) 56%

  

Mineração ilegal de ouro 16%

  

Grilagem de terras 15%

  

Exploração ilegal de madeira 13%

  

Quando os quatro fatores se somam num mesmo município, o efeito é ainda mais devastador: locais com todos os riscos presentes registraram até 30 homicídios adicionais por 100 mil habitantes — sobretudo a partir de 2014.

Os Estados Mais Vulneráveis

A pesquisa mapeou o acúmulo de fatores de risco por estado. Rondônia, Roraima e Pará concentram a maior média de riscos simultâneos por município, formando o núcleo duro da crise.

Rondônia Risco muito altoRoraima Risco muito altoPará Risco muito alto
Acre Risco altoAmazonas Risco altoAmapá Risco alto

A Rota das Drogas e a Chegada das Facções

A interdição de rotas aéreas de tráfico de drogas, implementada em 2004, produziu um efeito não antecipado: empurrou o narcotráfico para as hidrovias amazônicas. Rios que conectam países andinos produtores de cocaína a Manaus — e de lá para mercados nacionais e internacionais — tornaram-se as novas artérias do crime.

A fragmentação logística dessa rota fluvial gerou demanda local por transporte, armazenamento e proteção, aproximando populações ribeirinhas antes isoladas das atividades ilegais. A partir de 2016, o Primeiro Comando da Capital (PCC) monopolizou a rota alternativa pelo Paraguai, empurrando concorrentes para a rota amazônica — intensificando disputas por pontos estratégicos nos rios.

O resultado é visível nos números do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP): eram 178 municípios da Amazônia com presença de facções em 2023. Em 2025, já são 344 — quase o dobro em dois anos. Ao todo, 17 facções distintas operam na região.

O Que as Políticas Públicas Precisam Mudar

A pesquisa aponta que estratégias que funcionaram no passado — como a regularização fundiária e o fortalecimento da fiscalização ambiental — tornaram-se insuficientes diante da nova realidade. O crime organizado opera em redes sofisticadas que atravessam fronteiras estaduais e nacionais.

Os autores defendem uma abordagem integrada, que articule simultaneamente governança territorial, políticas ambientais, segurança pública, controle de fronteiras e coordenação entre instituições. Sem essa integração, a violência tende a continuar evoluindo junto com os mercados ilegais — sempre um passo à frente das respostas do Estado.

PONTOS CENTRAIS DO ESTUDO 18.755 homicídios em excesso acumulados na Amazônia entre 1999 e 2023Taxa de homicídios chegou a 30/100 mil hab. em 2023 — 50% acima do restante do Brasil60% do excesso de violência recente explicado pelos quatro fatores de risco combinadosFacções respondem por 56% das mortes associadas a riscos no período 2018–2023Número de municípios com facções: 178 (2023) → 344 (2025)Municípios com quatro fatores simultâneos registram até 30 homicídios adicionais por 100 mil hab.

O Mapa da Violência no Amazonas: município a município

Os dados nacionais ganham ainda mais peso quando observados em escala local. No Amazonas, o crescimento da violência não ficou restrito a Manaus: ele se espalhou progressivamente pelos rios, seguindo as mesmas rotas que transportam cocaína dos Andes para o mundo. O Atlas da Violência 2025 (Ipea/FBSP) e o relatório Dinâmicas da Violência no Estado do Amazonas (Ipea) permitem um retrato pormenorizado dessa interiorização.

MunicípioTaxa (por 100 mil hab.)PeríodoContexto / fator associado
Tabatinga85,92023 (est.)Tríplice fronteira Brasil/Colômbia/Peru; principal porta de entrada da cocaína andina pelo Solimões
Coari83,22023 (est.)Corredor estratégico no Médio Solimões; disputa intensa entre CV, PCC e facções locais
Iranduba61,32023 (est.)Região metropolitana de Manaus; rota fluvial de escoamento para a capital
Eirunepé61,4Média 2018–2020Interior do Alto Juruá; isolamento geográfico e ausência do Estado facilitam o tráfico
Fonte Boa47,3Média 2018–2020Município de pequeno porte no Alto Solimões; ponto de apoio logístico do tráfico
Manaus43,62023 (est.)4ª capital com maior número absoluto de homicídios no Brasil (984 mortes em 2023)
Lábrea43,4Média 2018–2020Fronteira com o Acre; rota do garimpo ilegal e tráfico fluvial pelo Rio Purus
Boca do Acre41,8Média 2018–2020Região de confluência com o Acre; múltiplos fatores de risco acumulados
Presidente Figueiredo39,5Média 2018–2020Próximo a Manaus; zona de expansão do crime organizado a partir da capital
Barcelos35,2Média 2018–2020Município remoto no Rio Negro; garimpo ilegal e rota emergente de drogas
Tefé31,2Média 2018–2020Hub regional do Médio Solimões; centro logístico e de redistribuição do tráfico
Itacoatiara31,52023 (est.)Porto fluvial no Baixo Amazonas; ponto de redistribuição para mercados externos
Maués31,3Média 2018–2020Município do Baixo Amazonas; zona de conflitos fundiários e crescimento do tráfico
Parintins26,32023 (est.)Segundo maior município do AM; crescimento da presença de facções nos últimos anos
Manacapuru25,62023 (est.)Região metropolitana de Manaus; expansão das facções a partir da capital

* Taxas estimadas (2023) segundo o Atlas da Violência 2025 (Ipea/FBSP), que utiliza metodologia de machine learning para corrigir subnotificação. Médias 2018–2020 segundo o relatório Dinâmicas da Violência no Amazonas (Ipea). Dados de municípios pequenos podem apresentar variação estatística em razão do baixo volume populacional.

O dado mais alarmante é a concentração geográfica do fenômeno. A violência no Amazonas é, em grande medida, um fenômeno fluvial: ela acompanha o traçado do Rio Solimões e de seus afluentes, do extremo oeste — onde Tabatinga faz fronteira com Colômbia e Peru — até a foz do Rio Negro, em Manaus. Cada município ao longo dessa rota cumpre uma função na cadeia logística do tráfico: alguns são portos de entrada, outros de armazenamento, outros de redistribuição.

Entre 2012 e 2022, o número de homicídios no Amazonas cresceu 31,8%, na contramão da média nacional, que registrou queda de 18,6% no mesmo período. Em 2023, a taxa estadual chegou a 37,3 homicídios por 100 mil habitantes — segunda maior da Região Norte e muito acima da média nacional de 22,8. O Atlas da Violência 2025 aponta ainda que o estado registrou 20 homicídios ocultos em 2023, um crescimento de 150% em relação a 2013, revelando que a violência real pode ser ainda maior do que os dados oficiais sugerem.

Há, porém, um contraponto relevante: a partir de 2021, o governo do Amazonas implementou políticas de segurança que produziram reduções consistentes. Em 2024, a taxa de homicídios caiu 17,4% — três vezes mais que a média nacional de 5,4%. Municípios como Rio Preto da Eva (-83%), Itacoatiara (-62%) e Coari (-30%) lideraram as quedas no primeiro semestre de 2025. Ainda assim, os números absolutos permanecem críticos: Coari ainda registra mais de 83 homicídios por 100 mil habitantes e Tabatinga supera 85 — patamares comparáveis aos de zonas de conflito armado em escala global.

NOTA AO EDITOR Os dados desta tabela provêm de fontes primárias públicas: Atlas da Violência 2025 (Ipea/FBSP), relatório Dinâmicas da Violência no Amazonas (Ipea) e Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 (FBSP). As taxas estimadas para 2023 utilizam metodologia de machine learning do Ipea para correção de subnotificação.

Fontes: Pereira, L.; Pucci, R.; Soares, R.R. (2025). Da exploração ilegal de recursos naturais ao tráfico internacional de cocaína: padrões de violência na Amazônia brasileira. Projeto Amazônia 2030. | Atlas da Violência 2025 — Retrato dos Municípios Brasileiros (Ipea/FBSP). | Dinâmicas da Violência no Estado do Amazonas (Ipea, 2022). | Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 (FBSP). | SIM-DATASUS / Ministério da Saúde. | IBGE.

  

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