Da Floresta ao Comando: Lucia Alberta Baré assume a presidência da Funai e volta os olhos do Brasil para a causa indígena
Uma filha do Alto Rio Negro chega ao mais alto posto da política indigenista nacional, trazendo na bagagem décadas de luta, a memória de seu povo e a esperança de milhares de indígenas espalhados pelo Brasil

Raízes nas águas do Rio Negro
Há uma expressão entre os povos do Alto Rio Negro, no coração da Amazônia, que diz que o rio não esquece de onde nasce. Lucia Alberta Baré nunca esqueceu.
Filha da região de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas — município onde aproximadamente 76% da população é indígena e que concentra a maior diversidade linguística do continente americano —, ela cresceu entre as margens do Rio Negro, em meio a uma região habitada por dezenas de povos originários, entre eles Baniwa, Desana, Tukano, Baré, Yanomami e tantos outros que formam o mosaico humano e cultural mais rico da Amazônia.
Lucia Alberta passou parte de sua infância na Terra Indígena Cué-Cué Marabitanas, região do Alto Rio Negro. Dessa terra vermelha às margens das águas negras da Amazônia, ela construiu uma trajetória que a levou, décadas depois, ao comando da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) — a instituição responsável por proteger, demarcar e garantir os direitos dos mais de um milhão de indígenas brasileiros.
O Povo Baré e a diversidade do Alto Rio Negro
São Gabriel da Cachoeira é uma cidade singular no mapa do Brasil. É o único município do país que reconhece oficialmente três línguas indígenas — Nheengatu, Tukano e Baniwa — ao lado do português. Ali, a diversidade não é folclore. É vida cotidiana, é culinária, é espiritualidade, é forma de organizar o tempo e o território.
O povo Baré, ao qual Lucia Alberta pertence, é parte dessa rica tapeçaria humana. Historicamente falantes do Nheengatu — a chamada “língua geral” da Amazônia, derivada do tupi e largamente falada nos séculos coloniais —, os Baré são um povo ribeirinho cujas raízes remontam às margens do Rio Negro há séculos. Após processos históricos de miscigenação e violência colonial, os Baré resistiram e preservaram sua identidade, sua relação com o território e seus saberes ancestrais.
É dessa matriz cultural profunda que emerge a nova presidenta da Funai.
Uma formação a serviço do povo
Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), com mestrado em Educação na mesma instituição, Lucia Alberta construiu durante oito anos sua atuação como funcionária pública na Secretaria Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira. Ali, ela não era apenas uma servidora. Era uma ponte entre o Estado e as comunidades que conhecia desde criança.
Posteriormente, trabalhou por outros oito anos no Instituto Socioambiental (ISA), período em que assessorou os povos indígenas do Alto Rio Negro na elaboração de seus projetos escolares. Nos anos finais dessa atuação no ISA, foi responsável por coordenar a construção de um programa de formação avançada indígena do Alto Rio Negro — uma proposta que visava fortalecer os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas num diálogo intercultural, formando profissionais para atuar em projetos específicos para o bem-viver da população indígena da região.
Essa experiência não foi apenas profissional. Foi política. Foi a construção de uma visão de mundo: a de que a educação indígena precisa falar a língua dos povos, precisa ser feita com eles, não para eles.
Da aldeia ao Congresso, do Ministério à Funai
A trajetória de Lucia Alberta é marcada por uma rara capacidade de transitar entre mundos sem perder a origem. Ela atuou no Ministério da Educação, onde coordenou políticas de educação escolar indígena e formação de professores em licenciatura intercultural. Lucia Alberta considera o ápice desse período a organização da 2ª Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena, que mobilizou mais de 30 mil pessoas, quando os delegados definiram 25 propostas prioritárias para a educação escolar indígena.
Entre 2012 e 2016, foi assessora da Presidência da Funai, contribuindo para a realização da 1ª Conferência Nacional de Política Indigenista, evento que reuniu mais de 50 mil participantes e resultou em quase 5 mil propostas para o atendimento aos povos originários.
Desde o segundo semestre de 2019, Lucia Alberta atuou na equipe legislativa e jurídica da deputada federal Joenia Wapichana, a primeira deputada federal indígena do Brasil — experiência que ela descreve como ímpar para compreender de perto a defesa pelos direitos indígenas no Congresso Nacional.
Diretora que virou presidenta
Ao assumir a Diretoria de Gestão Ambiental e Territorial da Funai a partir de janeiro de 2023, Lucia Alberta colocou em prática décadas de acúmulo. Na COP30, em Belém, ela afirmou que a nova Lei do Licenciamento Ambiental deve ser instrumento de proteção, nunca de ameaça, e que a Funai reafirma seu compromisso institucional de assegurar que nenhum empreendimento avance sem respeito aos direitos territoriais, sem consulta prévia e sem a devida análise de impactos — ressaltando que o papel do órgão é técnico, jurídico e também ético.
Para ela, ferramentas de gestão ambiental ampliam a capacidade institucional da Funai de integrar dados, qualificar análises e apoiar a atuação em diferentes contextos territoriais, respeitando a diversidade ambiental e sociocultural dos povos indígenas.
Agora, à frente de toda a instituição, as expectativas são enormes — e legítimas.
O que esperam os povos do Rio Negro e do Brasil
Em São Gabriel da Cachoeira e em toda a extensão do Alto Rio Negro, a nomeação de Lucia Alberta Baré é recebida com emoção. Para muitos indígenas daquela região, ver uma mulher do povo Baré — criada nas mesmas águas, nas mesmas línguas, nos mesmos saberes — assumir o comando da Funai tem um peso simbólico incomensurável.
Mas as expectativas vão além do símbolo. Os povos indígenas do Amazonas e do Brasil carregam demandas históricas acumuladas por décadas de omissão e desmonte institucional.
Na educação, espera-se o fortalecimento da educação escolar indígena bilíngue e intercultural, a valorização das línguas originárias e a ampliação do acesso ao ensino superior diferenciado. O debate sobre a primeira Universidade Federal Indígena é considerado estratégico para a formação superior diferenciada e para a valorização dos saberes tradicionais.
Na saúde, a articulação com a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) é fundamental para garantir acesso digno aos serviços, especialmente nas regiões de difícil acesso, como as comunidades ribeirinhas do Rio Negro, onde o deslocamento até um posto de saúde pode significar dias de viagem de barco.
Na assistência social e inclusão, os povos indígenas aguardam políticas que reconheçam suas especificidades — não a inclusão que apaga a diferença, mas a que garante direitos respeitando identidades, territórios e modos de vida.
Na proteção territorial, a demarcação de terras permanece urgente. Desde 2023, 21 terras indígenas tiveram seus limites declarados e o presidente Lula homologou 20 territórios — a demarcação e proteção dos territórios são fundamentais para proteger os direitos dos povos indígenas, fortalecer suas culturas e tradições, além de ser uma das principais estratégias de enfrentamento às mudanças climáticas.
Uma presidenta que conhece os dois lados da fronteira
O que distingue Lucia Alberta Baré de tantos gestores que passaram pela Funai ao longo de suas quase seis décadas de existência é justamente o que ela carrega no nome: a pertença. Ela não chegou à instituição para administrar o “problema indígena”. Ela chegou como parte da solução, como expressão viva de que os povos originários são sujeitos de sua própria história.
Ao tomar posse em cargo anterior na Funai, ela afirmou: “Temos muito trabalho pela frente na reconstrução da política indigenista.” A frase, dita anos atrás, ressoa ainda mais forte agora que ela assume o posto máximo da instituição.
Das águas negras do Rio Negro, das aldeias da Terra Indígena Cué-Cué Marabitanas, das salas de aula de São Gabriel da Cachoeira, dos corredores do Congresso Nacional e dos fóruns internacionais como a COP30 — Lucia Alberta Baré chegou à presidência da Funai trazendo na bagagem não apenas um currículo, mas uma vida inteira dedicada à causa de seu povo e de todos os povos originários do Brasil.
O Rio Negro não esquece de onde nasce. E ela tampouco.
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*Reportagem produzida com base em informações institucionais da Funai, dados do Instituto Socioambiental e registros do Diário Oficial da União.*
